Quando a depressão chega no Outono...
06 novembro 2009
  |  Partilhar:

Durante o Outono e o Inverno, os dias vão ficando gradualmente mais curtos. Com menos horas de exposição solar, muitos são os que começam a sentir melancolia e tristeza. Mas este estado de espírito pode ser, para alguns, verdadeiramente incapacitante. Trata-se de uma perturbação descrita em psiquiatria como “depressão afectiva sazonal”.

 

Não é nada anormal o comum dos mortais ter mais dificuldade em sair da cama quando toca o despertador nas manhãs frias de Inverno. Também não é invulgar sentir nostalgia quando acaba o Verão, com o fim das idas à praia, das férias laborais, do café tomado na esplanada a saborear a aragem. Esta nostalgia é normal e marca a passagem para uma nova estação do ano em que o recolhimento, dentro de casa e dentro de si, impera.

 

O que pode não ser normal são sintomas depressivos que se prologam no tempo e que se manifestam, sobretudo, nesta altura.

 

A depressão afectiva sazonal (Seasonal Affective Disorder – SAD) foi reconhecida como uma perturbação psicológica, em 1987, pela Associação Psiquiátrica Americana, e tem como sintomas principais cansaço, letargia, ansiedade e perturbações do sono (insónia ou sono prolongado).

 

Este fenómeno atinge, sobretudo, quem habita mais a norte do hemisfério Norte e mais o sul no hemisfério Sul, durante os meses de Outono e Inverno, dado estar intimamente relacionado com a captação da luz solar pelo organismo.

 

Vários estudos já verificaram que, durante os meses de Inverno, os níveis de serotonina (um neurotransmissor responsável pelo humor) baixam, dado que este neurotransmissor é activado pela exposição do organismo à luz solar.

 

É por isso que, em muitos países do norte da Europa, os que são mais afectados por este fenómeno, se recorre desde há alguns anos à fototerapia. Sob supervisão médica, o paciente fica exposto, dentro de uma cabine, a uma luz controlada e sem efeitos nocivos de radiação, cuja função é estimular a produção da serotonina no cérebro e inibir a produção de melatonina (hormona que regula o sono e é produzido no escuro). Contudo, por ser necessária uma exposição de meia hora diária na cabine de luz, muitos pacientes abandonam esta terapia, não conseguindo alívio para a sua patologia.

 

Num estudo publicado esta semana na revista “Behavior Therapy”, uma equipa de investigadores, liderada pela psicóloga Kelly Rohan, da University of Vermont, nos EUA, dá nota de uma terapia que mostrou funcionar melhor no tratamento da depressão sazonal: a terapia comportamental ou psicoterapia.

 

No estudo, foram avaliados 69 pacientes com depressão afectiva sazonal, os quais foram divididos em quatro grupos: um grupo recebeu fototerapia, o segundo foi tratado com terapia comportamental, o terceiro recebeu uma combinação de ambas e o último grupo não recebeu nenhum acompanhamento, tendo servido de grupo de controlo.

 

Seis semanas após o início do tratamento, 80% dos que receberam terapia combinada estavam em remissão dos sintomas, contra apenas 50% dos que realizavam terapia comportamental e a mesma percentagem dos que foram submetidos a fototerapia. Apenas 20% dos pacientes do grupo de controlo apresentaram remissão dos sintomas.

 

Os pacientes foram avaliados um ano após o início do tratamento. Desta vez, os investigadores verificaram que 5,5% dos que receberam terapia combinada e 7% dos que receberam terapia comportamental apresentaram uma recorrência da doença, face aos 36,7% registados pelos que foram tratados na cabine de luz. Estes dados reforçaram uma marcada diminuição do número de pessoas que beneficiaram da fototerapia, possivelmente devido ao incómodo provocado pelo método, que obriga a tratamento diário.

 

Também considerado pelos investigadores como surpreendente foi o facto de os pacientes submetidos a psicoterapia terem depressões menos graves do que os dos outros grupos e a combinação de psicoterapia com fototerapia não ter funcionado tão bem como a psicoterapia sozinha.

 

A psicóloga que liderou o estudo explicou, em comunicado enviado à imprensa, que a vantagem da terapia comportamental relativamente à fototerapia, que não tem efeitos a longo prazo, reside no facto de ela munir os pacientes de ferramentas que poderão ser usadas repetidamente. "Terminada a psicoterapia, não se tem de repetir o tratamento cada Inverno para o resto da vida, ao contrário do que acontece com a cabine de luz, que tem de ser usada todos os dias durante o Outono e o Inverno. A função da psicoterapia é ensinar técnicas para serem aplicadas no futuro”.

 

É verdade que, para a maioria de nós, a chegada do Outono é sinónimo de melancolia e introspecção, mas este estado de espírito pode ser bem direccionado, aproveitando-o para desenvolver projectos pessoais que não cabem na azáfama dos fins-de-semana de Verão. Dizem os especialistas (e o bom senso) que quem sofre desta nostalgia deve fazer uma alimentação equilibrada, ter um sono reparador, evitar o consumo de álcool e de tabaco, manter o convívio social, praticar exercício físico (que promove a libertação de endorfinas) e, acima de tudo, aproveitar a luz do sol para andar ao ar livre.

 

E, afinal, também pode saber bem passar o fim-de-semana a arrumar o armário lá de casa ou a tomar uma bebida quente enquanto jogamos Pictionary, não?

 

Paula Pedro Martins
jornalista

Partilhar:
Classificações: 6Média: 3.4
Comentários 1 Comentar

oi

blabla blabla, bla.

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.