Quando a auto-ajuda não ajuda
09 julho 2009
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Quantos de nós não se sentiu já o pior e mais desafortunado ser ao cimo da terra? Quantos de nós não passou já por fases na vida em que qualquer pequena dificuldade parece ser insuperável? E quantos de nós não comprou já um daqueles livros de auto-ajuda que proliferam nos lugares mais visíveis das livrarias?

 

Contudo, um estudo recente afirma que as frases positivas que são oferecidas como mantras nos manuais de auto-ajuda podem, afinal, causar o efeito inverso nos indivíduos que se pensava que mais iriam lucrar com elas: as pessoas com baixa auto-estima.

 

Em 1895, o pensador britânico Samuel Smiles escreveu o livro “Self-Help”, no qual fornecia vários conselhos sobre a forma como as pessoas deviam proceder para se ajudarem a si próprias. Nesse livro, Smiles deixou uma frase que ficou para a História: “o céu ajuda aqueles que se ajudam a si próprios”. Apesar de ser referido como o primeiro escritor de livros de desenvolvimento pessoal, já os filósofos, quer do ocidente quer do oriente, incentivavam o auto-conhecimento e ajuda: se não, o que poderíamos chamar aos mantras usados no budismo?

 

De facto, os livros de auto-ajuda são, actualmente, um verdadeiro negócio que move milhões de euros no mercado editorial mundial. Recentemente, o livro e filme “O Segredo” - que tece dezenas de ideias sobre como pensar positivo e atingir (tudo) o que se pretende - foi best-seller durante meses consecutivos em dezenas de países, incluindo Portugal.

 

A felicidade, o bem-estar, o sucesso em todos os campos parece estar ao alcance de todos; basta, para isso, ler um livro de auto-ajuda. Na verdade, do ponto de vista científico, trata-se de uma falsa ideia, amplamente difundida na sociedade.

 

Um trabalho recente, realizado por Joanne Wood e John Lee, da University of Waterloo, e Elaine Perunovic, da University of New Brunswick, no Canadá, traz dados científicos que contrariam, inequivocamente, o que muitos de nós pensamos: que a auto-ajuda surte efeito positivo em todos.

 

No artigo, publicado na revista “Psychological Science”, os investigadores referem que, ao contrário do que toda a gente julga, as frases de auto-afirmação positiva podem não ter qualquer utilidade para algumas pessoas, embora possam beneficiar outras.
 

E podem mesmo ter o efeito contrário, fazendo com que algumas pessoas se sintam pior.

 

Logo no início da apresentação do seu trabalho, os cientistas referem a importância do estudo que realizaram, dado que são milhões as pessoas que todos os dias procuram na auto-ajuda um alívio para os seus males.

 

A investigação canadiana decorreu em três fases. Numa primeira, os voluntários – 47 homens e 202 mulheres, todos estudantes universitários – responderam a um questionário onde se pretendia aferir se usavam no seu dia-a-dia frases de auto-ajuda e se acreditavam nelas. Os cientistas verificaram que a maioria recorria a esse tipo de máximas.

 

Numa segunda fase, foi avaliado o efeito dessas frases no humor dos voluntários. Nesta etapa do estudo, os participantes foram divididos em dois grupos, respeitando um equilíbrio de número quanto ao género e grau de auto-estima (baixa e alta auto-estima).

 

Os dois grupos de voluntários tinham de registar em papel todos os seus sentimentos no momento, mas um dos grupos tinha uma tarefa adicional: quando soava uma campainha, de 15 em 15 minutos, pronunciavam para si mesmos a frase: "Sou uma pessoa muito querida" ("I am a lovable person"). No final, todos foram avaliados no que concerne ao seu estado de espírito.

 

Os cientistas verificaram que quem possuía uma auto-estima elevada acabou por beneficiar ligeiramente da repetição de frases positivas. Mas, ao invés, as pessoas com baixa auto-estima sentiram-se pior do que as que tinham apenas escrito os seus sentimentos sem repetirem as frases.

 

Em entrevista à BBC, Joanne Wood explicou o fenómeno: “o que acontece é que, quando uma pessoa com baixa auto-estima repete pensamentos positivos, provavelmente tem sentimentos contraditórios. Portanto, se afirmam 'Sou uma pessoa querida', podem estar a pensar 'Bem, nem sempre sou querido' ou 'Não sou querido neste sentido' e esses pensamentos contraditórios podem-se sobrepor aos pensamentos positivos".

 

Foi precisamente isso que os cientistas comprovaram na terceira fase do teste, ao permitirem aos elementos de apenas um dos grupos que, ao pronunciarem interiormente a frase positiva, não afastassem os pensamentos negativos. Esta permissão serviu de contrabalanço e, nas pessoas com baixa auto-estima, provocou um efeito positivo.

 

Por isso, os investigadores concordam que as pessoas com baixa auto-estima possam beneficiar de frases moderadamente positivas, do estilo “gosto de dar presentes”, em vez de frases muito genéricas, do tipo “sou muito generoso”

 

De qualquer modo, no artigo, os cientistas referem que os pensamentos positivos são, de facto, eficazes, quando integram uma terapia mais ampla, mas, por si só, tendem a reverter o efeito que supostamente deveriam ter.

 

Em jeito de alerta, a psicóloga pede aos autores de livros, artigos e programas de televisão que promovem a auto-ajuda para deixarem de insistir na ideia de que a repetição de um mantra positivo aumentará a auto-estima. Porque, diz, isso "é frustrante para as pessoas quando tentam e não funciona".

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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