Porque continuam a tratar a homossexualidade como uma doença?
07 maio 2009
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Apesar de vários especialistas na área reprovarem as técnicas psicológicas que tentem mudar a orientação sexual, em pleno século XXI, continua a controvérsia em torno da questão: será a homossexualidade passível de ser tratada?

 

Um estudo recente, envolvendo cerca de 1400 psiquiatras britânicos, mostrou que 4% dos terapeutas declararam que ajudariam a mudar a orientação sexual dos seus pacientes e 17%, que tentariam ajudar os seus pacientes a conter os instintos homossexuais. De acordo com o estudo, publicado na revista “BMC Psychiatry”, muitos dos terapeutas afirmaram agir com a "melhor das intenções".

 

Em entrevista à BBC a propósito do estudo, o psiquiatra Michael King, da University College, em Londres, adverte para o facto de se saber que “os esforços para mudar a orientação sexual da pessoa resultam em poucas mudanças e podem ser prejudiciais”, podendo até conduzir ao suicídio.

 

"Acho muito preocupante haver uma minoria significativa de terapeutas que parecem ignorar este facto, mesmo que o façam com a melhor das intenções", alerta ainda o especialista.

 

De facto, desde 1973, que a Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla original) pede a todos os profissionais que interrompam as tentativas de alterar a orientação sexual dos indivíduos. Nessa data, a APA aprovou uma regulamentação, denominada “Sexual Orientation and Homosexuality”, na qual refere que a orientação sexual não é uma escolha. “Para a maioria das pessoas, a orientação sexual emerge cedo na adolescência sem nenhuma experiência sexual anterior. Embora possamos escolher se agiremos sobre os nossos sentimentos, os psicólogos não consideram a orientação sexual como sendo uma escolha consciente que possa ser voluntariamente modificada."

 

Contudo, na verdade, muitos homossexuais tentam mudar a sua orientação sexual, pressionados pela família, sociedade ou grupos religiosos.

 

Nessa regulamentação, a APA reforça que “a homossexualidade não é uma doença; não requer tratamento e não é modificável.

 

Todavia, nem todas as pessoas que procuram a ajuda de um profissional de saúde mental desejam mudar a sua orientação sexual. Gays, lésbicas e bissexuais podem procurar ajuda psicológica para o processo de se assumirem como tal, de encontrarem estratégias para lidar com o preconceito. Mas a maioria inicia terapia pelas mesmas razões e pelos mesmos problemas da vida que conduzem os heterossexuais a procurar os profissionais da saúde mental."

 

Ao longo do século XX, vários estudos têm sido feitos sobre a temática: uns identificam genes responsáveis pela orientação sexual, como os liderados por Glenn Wilson e Qazi Rahman, investigadores na área da psicologia e autores de “Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation”; outros, como Daryl Bem, psicólogo da Universidade de Cornell, nos EUA, analisam a importância da formação intra-familiar no homossexual; e outros ainda, baseados nas teorias Freudianas, explicam a origem da homossexualidade.

 

Apesar deste interesse, não podemos deixar de reforçar que, em várias sociedades ao longo da história, a homossexualidade tem sido considerada normal, como por exemplo na Grécia Antiga ou durante o Império Romano. Felizmente, longe vão os tempos em que a Terapia de Choques Eléctricos, encetada pelo neurologista italiano Ugo Cerletti em 1938, era aplicada como tratamento para a homossexualidade.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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