Placebo funciona, mesmo quando os pacientes sabem que o tomam
07 janeiro 2011
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Os médicos sempre se confrontaram com o dilema ético de não dizer a verdade aos doentes quando lhes prescrevem um mero comprimido de açúcar. Mas, um estudo recente promete acabar com este dilema. 

 

Os cientistas não têm dúvidas que o placebo funciona. Aliás, vários estudos já demonstraram que o placebo, comprimido inerte, sem qualquer valor terapêutico, promove resultados muito positivos numa parte dos pacientes com certas patologias, nomeadamente na depressão.

 

O placebo é, normalmente, usado, nos estudos clínicos, como meio comparativo dos efeitos do fármaco ou tratamento com princípio activo. Testes realizados com asmáticos descobriram, por exemplo, que, ao ser dado um placebo – mas omitindo a falta de valor terapêutico e dizendo aos pacientes tratar-se de um broncodilatador – este produziu a dilatação das vias aéreas.

 

Num outro trabalho, realizado por Irving Kirsch e Guy Sapirstein, da Universidade de Connecticut, EUA, os investigadores analisaram 19 testes clínicos sobre a toma de  antidepressivos. Verificaram que o facto de os pacientes acreditarem nas melhoras produzidas pelo medicamento foi responsável por 75% da eficácia do fármaco destinado a controlar os distúrbios de humor.

 

Contudo, muitos questionam se o efeito placebo se deve à resposta natural do nosso organismo, que nos conduz naturalmente à cura das doenças ou a um efeito psicológico promovido pelo facto de se acreditar que o comprimido de açúcar tem um efeito terapêutico quase mágico, levando a que se produzam reacções físicas que promovam a cura. De facto, ambas as teorias são interessantes e aparentemente justificam o poder curativo dos placebos.

 

Mas, um estudo recente publicado na revista científica "PLoS ONE" vai mais além, ao verificar que, os efeitos benéficos do placebo continuam a funcionar, mesmo quando os pacientes tomam conhecimento da sua nulidade terapêutica. Esta investigação partiu da preocupação ética que muitos médicos são confrontados quando prescrevem placebo aos seus doentes: dizer ou não a verdade, sem afectar os resultados positivos que esperam para os seus pacientes, mas sem o peso de não lhes contarem a verdade. Os cientistas esperavam resolver era este dilema, demonstrando que, mesmo dizendo a verdade aos pacientes, o placebo continuava a produzir efeitos positivos na sintomatologia dos doentes.

 

Para a investigação, os cientistas administraram a 80 pacientes com síndrome do intestino irritável (SII) dois tratamentos. Um grupo, o de controlo, recebeu apenas consultas com médicos e enfermeiros; o segundo grupo recebeu as mesmas consultas, mas em conjunto com a medicação sem valor terapêutico, mas que foi claramente identificada como “placebo”, e que deveriam tomar duas vezes por dia.

 

“Não só ficou totalmente claro que os comprimidos não tinham princípios activos e eram feitos de componentes inertes”, disse, em comunicado de imprensa, o líder da investigação, Ted Kaptchuk, da Universidade de Harvard, explicando que “os nossos frascos até tinham uma etiqueta que dizia ‘placebo’. E, além disso, também foi dito aos doentes que não tinham de acreditar no efeito placebo, só tinham de tomar os comprimidos.”

 

Três semanas depois do início do teste, os pacientes que receberam a medicação obtiveram melhores respostas no questionário utilizado para avaliar o estado da sua condição clínica. Estes questionários são usados por não ser possível medir objectivamente a gravidade da síndrome. Segundo Kaptchuk, a diferença foi "enorme", comparável à observada nos testes realizados com fármacos com valor terapêutico. De acordo com o estudo, 59% dos pacientes que tomaram placebo contaram sentir alívio dos sintomas, contra 35% do grupo que não tomou nada.

 

“Achei que não iria funcionar”, disse, Anthony Lembo, co-autor do estudo, no mesmo comunicado, explicando ter ficado incomodado ao pedir aos pacientes que sofriam de uma condição clínica que tomassem um placebo. “Mas, para minha surpresa, o placebo pareceu funcionar para muitos deles”.

 

Os autores advertem, no entanto, para que os dados do estudo sejam observados com cautela, dado que se trata de resultados de uma pequena investigação, que abre, simplesmente, a porta para a noção de que os placebos são eficazes até para pacientes totalmente informados, mas que esta hipótese terá de ser confirmada em estudos maiores. "Contudo", diz Kaptchuk, "estes resultados sugerem que, mais do que um mero pensamento positivo, pode haver um benefício significativo para o seu desempenho. Estou animado para continuar a estudar a questão. O placebo pode funcionar, mesmo se os pacientes sabem que estão a tomar um placebo ".

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

 

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