Partir os comprimidos é uma prática perigosa
28 janeiro 2011
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Se costuma partir os comprimidos, tenha cuidado. Quando um fármaco é cortado, a dosagem é alterada, facto que pode implicar riscos para a saúde.

 

Vários estudos têm demonstrado que quando partimos um comprimido ao meio, mesmo que tenhamos em intenção uma maior precisão, as duas metades não ficam com as mesmas concentrações. Como consequência o efeito vai variar.

 

Neste estudo publicado este mês no “Journal of Advanced Nursing”, investigadores da Universidade de Ghent, na Bélgica, verificaram que cortar os comprimidos pode levar a que os pacientes tomem doses erradas. O trabalho científico foi incentivado por vários enfermeiros que realizam serviço em lares de idosos e que se confrontam, diariamente, com a necessidade de terem de cortar a medicação dos seus pacientes.

 

Mas as conclusões a que a equipa de investigadores chegou foram, de algum modo, preocupantes. Se, na verdade, segundo conta em comunicado a líder da investigação, Charlotte Verrue, partir a medicação é uma prática corrente nos lares de idosos, nem “todas as fórmulas são adequadas para a separação e, mesmo quando o são, podem ocorrer grandes desvios de dosagem e, apesar de poder existir apenas uma pequena diferença entre as doses terapêuticas e tóxicas este facto pode implicar graves consequências clínicas”.

 

Para o estudo, os investigadores pediram a cinco pessoas (um estudante de farmácia, um investigador, um professor, um funcionário administrativo e um técnico de laboratório) para que partissem oito tipos de comprimidos de diferentes tamanhos e formatos, utilizados para o tratamento de doenças como trombose, artrite e síndrome de Parkinson. Ao todo, os cinco voluntários partiram os fármacos em 3.600 metades e quartos. Para a tarefa, os medicamentos deveriam ser cortados com três ferramentas normalmente usadas: um cortador de comprimidos (que tem uma lâmina em aço), uma tesoura e uma faca.

 

A escolha destes voluntários tinha como intenção replicar o que pode acontecer em casa, onde o corte de medicamentos não é realizado por enfermeiros especializados. Com excepção do técnico de laboratório, nenhum dos outros participantes do estudo tinha experiência em partir comprimidos.

 

O estudo verificou que 31% dos fragmentos cortados desviavam do peso teórico em mais de 15% e que, em 25% dos casos, o desvio rondava os 14%. Mesmo usando o método de corte mais preciso – o cortador de medicamentos – foi apresentado um desvio de 25% do peso em oito casos. Contudo, esta margem foi muito inferior aos 19% apresentados pelo corte com tesoura e aos 17% com a faca.

 

Alguns fármacos, contudo, são muito mais fáceis de dividir com precisão do que outros. Os mais fáceis produziram uma margem de erro global (15% de desvio ou mais) de 2% e os comprimidos mais difíceis produziram uma margem de erro de 19%. Segundo a responsável do estudo, cortar os medicamentos é, actualmente, inevitável devido a um conjunto de situações: “para aumentar a flexibilidade, para os tornar mais fáceis de engolir e para poupar dinheiro, tanto para os doentes como para os serviços de saúde”.

 

No entanto, temos de ter em atenção que, “os comprimidos partidos têm frequentemente tamanhos desiguais e uma porção considerável do fármaco pode ser perdida durante a divisão”. Deste modo, e com base nos resultados, a investigadora lança algumas recomendações. Numa primeira, aconselha a utilização de um cortador de comprimidos, quando a divisão não puder ser evitada, por exemplo, quando a dose prescrita não estiver disponível comercialmente, ou quando não existirem fórmulas alternativas, como um líquido.

 

Uma outra recomendação da investigadora reside na formação dos profissionais de saúde responsáveis pela separação dos comprimidos, de modo a que aprendam a realizar o corte com a maior precisão possível. Do mesmo modo, reforça a especialista, estes profissionais também devem possuir conhecimento sobre as possíveis consequências clínicas dos desvios de dosagem.

 

Um último factor destacado pela investigadora tem com destinatários os laboratórios farmacêuticos. Charlotte Verrue apela ao desenvolvimento de uma ampla gama de dosagens do mesmo medicamento, ou na falta delas, fórmulas líquidas. Com estas iniciativas, o processo de partir comprimidos tornar-se-á desnecessário. Para segurança e saúde de todos.

 

Paula Pedro Martins

Jornalista

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