Paixão é um poderoso analgésico
18 outubro 2010
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Além do brilho no olhar, do coração palpitante e, muitas vezes, da perda completa da razão, a paixão tem ainda outro benefício: funciona como um potente analgésico da dor física. Tudo porque este forte sentimento estimula o mecanismo de compensação do cérebro, da mesma forma que uma droga.

 

"Quando a pessoa está na fase apaixonada e até obsessiva do namoro, ocorrem alterações no humor que têm impacto nas experiências de dor", afirma Sean Mackey, líder de um estudo sobre a relação entre paixão e dor, publicado no "PLoS ONE". Estes são sintomas cerebrais profundos que envolvem a dopamina, um dos principais neurotransmissores que influenciam o humor, a recompensa e a motivação.

 

"As áreas do cérebro activadas pela paixão são as mesmas que são activadas pelos fármacos que reduzem a dor", disse, em comunicado de imprensa, o co-autor do estudo Arthur Aron, professor de psicologia na Universidade de Nova York em Stony Brook. Segundo o especialista, “ao pensar sobre o ser amado, há uma intensa activação na área do cérebro responsável pela recompensa - a mesma área que se activa quando se toma cocaína, ou quando se ganha muito dinheiro."

 

Há mais de 30 anos que Arthur Aron estuda o amor. Mas a possível ligação entre a paixão e a dor nasceu há apenas alguns anos, quando, num congresso sobre neurociência, Aron conheceu Sean Mackey, director de serviço do controlo da dor e professor de anestesiologia da University of Stanford. Durante a apresentação das investigações, os cientistas repararam que os seus discursos estavam em sintonia, apesar de os objectos de estudo serem diferentes. "O Arthur falava sobre os sistemas neuronais envolvidos no amor, e eu falava sobre os sistemas neuronais envolvidos na dor. Percebemos que havia uma grande sobreposição. E questionámo-nos: Será possível que os dois se consigam modular?"

 

De regresso a Stanford, Mackey trabalhou com Jarred Younger, professor assistente de anestesiologia da mesma universidade, que também estava intrigado com a ideia. Juntos, os três decidiram investigar a relação entre paixão e dor, tendo como base a análise das imagens do cérebro de pessoas que estivessem a viver a primeira fase do amor intenso, nos primeiros nove meses de um relacionamento amoroso, quando os indivíduos são inundados por sentimentos de euforia, energia e por uma obsessão permanente pelo objecto amado. Publicaram anúncios na Universidade de Stanford onde solicitavam para o estudo pessoas que estivessem apaixonadas. Em poucas horas tinham dezenas de respostas. Não foi difícil, segundo conta Mackey em comunicado de imprensa, “porque quando estamos nesta fase da relação queremos contar o nosso amor a todo o mundo”. Os investigadores escolheram 15 estudantes, oito mulheres e sete homens, e pediram-lhes para que trouxessem fotos dos seus namorados e de uma outra pessoa que também lhes provocasse atracção.

 

Enquanto eram expostos às imagens, foi-lhes aplicado um estimulador na palma da mão que lhes infligia uma leve dor. Ao mesmo tempo, os seus cérebros foram analisados por imagens de ressonância magnética funcional. Os voluntários foram avaliados de acordo com os seus níveis de alívio à dor, enquanto eram entretidos com uma tarefa que consistia na associação de palavras, como ditar desportos em que não fossem usadas bolas.

 

O facto de terem introduzido o elemento distracção baseia-se em provas científicas de que o estarmos entretidos com algo nos alivia a dor e os investigadores queriam garantir que o amor não funcionava apenas como mera distracção. Através da análise das imagens de ressonância magnética, os cientistas descobriram que quando os voluntários viam a foto da pessoa amada tinham uma percepção muito mais reduzida da dor do que quando olhavam uma outra foto da pessoa que consideravam atraente, mas pela qual não nutriam paixão.

 

Os resultados mostraram que tanto o amor como a distracção reduziam, de igual forma, a dor, mas através de mecanismos cerebrais diferentes. Na prova de distracção, os mecanismos cerebrais que levavam ao bloqueio da dor foram principalmente cognitivos. Enquanto, "a analgesia induzida pelo amor está muito mais associada com os centros de recompensa do cérebro e parece envolver áreas cerebrais mais primitivas, activando estruturas profundas que conseguem bloquear a dor ao nível da coluna vertebral, de uma forma semelhante, ao modo  como actuam os analgésicos opióides" , explicou Younger.

 

Um dos locais-chave na analgesia induzida pela paixão é o núcleo “accumbens”, uma área do cérebro envolvida no sistema de recompensa da dependência de opióides, cocaína e outras drogas viciantes. Com o resultado do estudo, os cientistas esperam conseguir um maior conhecimento sobre o modo como estas vias neuronais são activadas, informações que poderão ser usadas para o desenvolvimento de novos métodos para produzir alívio da dor, livres de efeitos secundários.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

 

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