Pais que recusam vacinar os filhos
18 junho 2009
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Vários movimentos de pais na Europa e nos EUA começaram, nos últimos anos, a rejeitar a vacinação dos seus filhos. São seguidores de uma filosofia holística que advoga uma visão integral dos fenómenos. Nesta visão, a vacinação é considerada contraproducente porque imuniza as crianças contra doenças que, dizem, fortalecem o sistema imunitário. Mas será que conhecem bem os riscos desta decisão?

 

Há poucos meses, uma amiga que teve recentemente o seu terceiro filho surpreendeu-me ao dizer que não ia vacinar o seu bebé. Com os dois primeiros filhos cumpriu todas as vacinas do Plano Nacional de Vacinação (PNV) mas agora, ao ler sobre os riscos da vacinação e depois de ter pedido à pediatra mais informações, decidiu não submeter o seu bebé às vacinas contra o sarampo, a papeira e a rubéola.

 

Fiquei apreensiva com a sua decisão, contra-argumentei, mas não o suficiente para a demover. De qualquer modo, essa conversa fez-me despertar para o assunto e, ao pesquisar informação na Internet, verifiquei que, em variadíssimos blogues, pais e mães, nomeadamente nos EUA e em França, professam a mesma visão. São pessoas pertencentes à dita classe A e não é, portanto, por falta de condições económicas que não cumprem a vacinação comparticipada pela Estado.

 

Entre os múltiplos argumentos, muitos pais dizem não querer colocar os filhos em risco, dado que qualquer vacina tem em si o potencial de causar efeitos secundários, tais como o desenvolvimento de doenças.

 

Num artigo escrito por Douglas S. Diekema para a revista “Pediatrics”, com o título “Responding Parental Refusals of Immunization of Children”, o pediatra emite vários conselhos aos seus pares sobre a forma como podem desmistificar certas ideias pouco fundamentadas dos pais contra a vacinação.

 

No documento, o especialista, que pertence ao comité de bioética da American Academy of Pediatrics, explica que “os benefícios da vacinação superam o simples benefício da pessoa imunizada, visto que a decisão dos pais em não vacinar os seus filhos afecta a comunidade de diferentes formas”.

 

Refere o médico que “uma criança não vacinada apresenta um maior risco de contrair doenças (muitas podem originar graves problemas de saúde e, inclusive, a morte) e aumenta o risco de contágio a outras crianças não imunizadas ou susceptíveis”, estando dentro deste último grupo, crianças que não respondem adequadamente à vacina ou que não a podem receber por problemas de saúde.

 

Sobre os pais que não vacinam os filhos por outras razões, o médico refere que, ao colocarem os interesses familiares à frente das suas responsabilidades cívicas, colocam quem não pode ser vacinado (quer por problemas de saúde, quer por dificuldades económicas) em risco, dado comprometerem o sistema de vacinação indirecta.

 

Um estudo recente, publicado na revista “Pediatrics” por investigadores do Kaiser Permanente, no Colorado, EUA, vem reforçar esta teoria médica.

 

A investigação, liderada por Jason M. Glanz confirmou, em laboratório, 156 casos de tosse convulsa. Em relação a cada caso foi registado se a vacinação tinha ou não sido efectuada. Ao compararem os dados com os de outras 595 crianças de um grupo de controlo, verificaram que as crianças não vacinadas eram cerca de 23 vezes mais propensas a contrair a tosse convulsa do que as crianças vacinadas. Na conclusão do estudo, Jason M. Glanz, sublinhou que esta investigação traz informação adicional que pode ser usada tanto pelos médicos quanto pelos pais, reforçando a mensagem de que “os pais precisam de saber as consequências da escolha de não vacinar.”

 

Segundo dados dos Centers for Disease Control and Prevention dos EUA, mais da metade das crianças que contraem tosse convulsa são hospitalizadas, cerca de uma em cada dez contrai pneumonia e uma em cada 50 tem convulsões. Em 2007, nos EUA, registaram-se 10.454 casos de tosse convulsa, sendo que dez crianças morreram.

 

Em Portugal, o PNV tem um carácter orientador e incentivador. As únicas vacinas do PNV que são obrigatórias, a do tétano e a da difteria, podem mesmo assim, por vontade dos pais e se eles assinarem um termo de responsabilidade, não serem administradas aos seus filhos.

 

Segundo dados da Direcção-Geral da Saúde (DGS), estima-se que cerca de 95% dos portugueses estão vacinados. E, à imagem do que se passa nos EUA e na Europa, em caso de perigo para a saúde pública, quer por uma falta de vacinação em massa, quer por existir uma epidemia, a DGS pode tornar a vacinação obrigatória.

 

Resta é saber se, num caso desses, a vacinação em massa ainda vai a tempo…

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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