Os erros do "Dr. House" e das séries de medicina
22 fevereiro 2010
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É um verdadeiro médico-detective: inteligente, perspicaz e sempre com solução para todos os casos clínicos. Gregory House é o protagonista de "Dr. House", uma das séries televisivas com maior audiência dos últimos tempos. Mas, à imagem do que acontece noutras séries e filmes que retratam o quotidiano dos hospitais, o "Dr. House" deturpa a realidade e pode induzir os telespectadores em erro.

 

Quando o "Dr. House" irrompe pela sala de espera do hospital e socorre um paciente que está a ter uma convulsão amarrando-lhe os braços e colocando-lhe um objecto na boca, isto pode levá-lo a pensar que estes são os procedimentos correctos neste tipo de situação. Mas não são.

 

Um estudo da Dalhousie University, em Halifax, Canadá, parcialmente divulgado no sítio da American Academy of Neurology, revelou que em 327 episódios de séries médicas, como "Anatomia de Grey", "Dr. House", "Clínica Privada" e "ER" (Serviço de Urgência), quase metade dos doentes/actores com ataques epilépticos foram mal socorridos.

 

Os autores do estudo analisaram 59 ataques de epilepsia ficcionados em que intervieram médicos e enfermeiros. Procedimentos errados - como deitar o doente, prender-lhe os movimentos ou colocar-lhe um objecto na boca - foram registados 25 vezes, ou seja, em quase metade das situações.

 

"As directrizes médicas actuais indicam que, nestes casos, o essencial é evitar contusões, contacto e pancadas (devendo afastar-se o paciente dos objectos). É contra as directrizes de primeiros socorros para ataques epilépticos tentar segurar o paciente, porque são movimentos que implicam muita força nos músculos e o contacto pode causar cortes e lacerações", explicou, em comunicado de imprensa, o principal autor do estudo, Andrew Molar.

 

Outra recomendação é virar o paciente de lado para que as secreções da boca não entrem nas vias respiratórias e causem engasgamento. "E uma das coisas mais importantes é ficar ao lado da pessoa até ela regressar ao nível de consciência original", acrescentou Andrew Molar.

 

O investigador enfatizou o facto de estas séries recorrerem a ingredientes visuais que prendam o telespectador ao ecrã. Mas, certos procedimentos clínicos usados na vida real não têm nada de espectacular para apresentar no filme. E exemplifica com o caso dos ataques epilépticos que seriam muito mais apelativos visualmente se o paciente/actor fosse agarrado por médicos e enfermeiros. Mas estes são procedimentos incorrectos: o correcto seria “virar a pessoa de lado e colocar um travesseiro sob a cabeça dela”, facto que, do ponto de vista televisivo não é tão apelativo como a situação anteriormente citada.

 

Para Lisa Sanders, médica consultora da série "Dr.House", os resultados deste estudo não constituem surpresa. Em entrevista à cadeia televisiva norte-americana “CNN”, a internista da Yale University School of Medicine, nos EUA, disse que a série "Dr. House" está longe do que se passa na realidade nos hospitais.

 

Sanders contou ter passado imenso tempo a tentar convencer a equipa de produção da série de que não deveriam colocar nada na boca dos “pacientes/actores” durante uma crise epiléptica. O seu conselho foi, finalmente, ouvido quando, num dos episódios, um médico da equipa do Dr. House repreendeu um outro que seguia o procedimento errado, explicando-lhe que isso podia levar à asfixia do doente. "Eles (equipa de produção) estão mais interessados em representar a ideia da incerteza do diagnóstico e a probabilidade do erro de diagnóstico em vez de fazerem um diagnóstico correcto. Tudo o resto está completamente subordinado às necessidades do drama", explicou a especialista.

 

Várias outras situações são apontadas pela especialista como sendo irreais como, por exemplo, o facto de na equipa do Dr. House não constarem enfermeiros e outros profissionais de saúde e de serem os médicos a realizarem todos os procedimentos clínicos, desde TAC e ecografias até cirurgias. Mais “irritante” ainda é o facto de os médicos efectuarem cirurgias sem máscara nem touca.

 

A especialista diz realizar periodicamente levantamentos de todos os procedimentos considerados errados do ponto de vista médico, mas, segundo reforça, uns são levados em consideração enquanto a rectificação de outros é protelada.

 

Segundo a especialista, as séries como o "Dr. House" estão longe da realidade hospitalar também porque a prática médica deve ser o menos dramática que for possível e a realização dos procedimentos clínicos não é uma situação excitante, ao contrário do que as séries e filmes querem fazer parecer.

 

Mas é uma verdade incontestável que o "Dr. House" é um fenómeno televisivo, que já vai na 6ª série. Gregory House é o Sherlock Holmes do diagnóstico médico: agressivo, mas sedutor; mal-educado, mas com muito humor; irreverente, mas apaixonado pela prática médica. Qualidades que fazem deste quase anti-herói um personagem que admiramos e pelo qual sentimos empatia.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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