Odette Ferreira: Uma mulher de luta
12 março 2009
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Já é professora quando, nos anos 70, deixa a vida de «princesa» e vai para Paris. Estuda e investiga sempre a “esticar” o magro dinheiro da bolsa. Em Lisboa, deixa os filhos e o marido. Estamos no início dos anos 80 quando Portugal salta para a ribalta científica: Odette Ferreira isola e identifica o vírus da imunodeficiência humana (VIH) tipo 2.

 

No bar da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa (FFUL), Odette Ferreira olha, com uma expressão ternurenta, os rituais da entrada dos caloiros. Em fila indiana, atados uns aos outros por uma corda, dezenas de novos alunos seguem as instruções dos veteranos. Odette Ferreira tem mais de 70 anos, mas não parece. Muito direita, elegantemente vestida, guarda a juventude na postura e no olhar. Com simpatia, dispõe-se a mostrar todos os cantos daquela grande casa, enquanto explica a história da Faculdade que ajudou a erguer. 

 

Até à década de 70 foi mãe quase a tempo inteiro e analista clínica. Depois, quando a revolução de Abril 1974 trouxe mais liberdade às Universidades, Odette regressou para iniciar uma carreira académica. Ao mesmo tempo que o país vivia um período político conturbado, Odette começa a encetar a sua “revolução pessoal”. A Faculdade de Farmácia de Lisboa carece de assistentes. Odette possui já uma vasta experiência prática e é convidada para assistente das cadeiras de Microbiologia e Bioquímica.

 

Em 1974 passa a ser responsável pelo Departamento de Microbiologia da FFUL, cargo que mantém até 1995. Com o poder de um verdadeiro “furacão”, quer mudar tudo. Começa pelos métodos de ensino: “As aulas práticas eram muito rígidas, com regras severas, onde os alunos quase não podiam mexer nos tubos de ensaio”. Odette revoluciona o esquema académico. “Exigi aulas práticas com poucos alunos para que pudessem mexer em tudo». Resultado: «Aulas onde não cabia mais ninguém”, relembra.

 

Mudar de vida

 

Enquanto se dedica à faculdade, Odette aceita, de novo, mais um desafio: Ingressar no Instituto Pasteur, em Paris, “onde existia tecnologia da mais avançada”.

 

Em Lisboa deixa o marido e os filhos. A decisão é tomada “com muito custo”, diz, porque afinal, “não era apenas uma aposta na minha carreira. Como mulher, ia ficar muito diferente...” Odette admite ter dado um passo muito ousado. “Eu estava habituada a um estilo de vida completamente diferente do que ia viver em Paris. Era mãe e mulher quase a tempo inteiro. Fazia os bolos para os filhos, para o marido. A mesa era sempre posta com todos os requintes de etiqueta. Não saía sozinha... o meu marido levava-me de carro para todo o lado”.

 

“Depois de ter explicado ao meu marido que ou ia para a frente e seguia uma carreira académica, ou não, e esquecia tudo, ele acabou por ceder. E fui.” Sempre ligada à família através do telefone, Odette afirma que durante todo esse tempo rejuvenesceu, “voltei a ter 30 anos...”. Começou a fazer a típica vida de estudante, com todas as partes boas e más que isso implica. Vive numa cidade universitária, “estica” o dinheiro da parca bolsa e transforma-se. “Fiquei muito mais prática. Quando o meu marido me visitava quase não me conhecia. Deixei de achar necessário arranjar-me ao pormenor para ir ao cinema, por exemplo, coisa que fazia em Lisboa. Foram experiências muito ricas do ponto de vista humano.” 

 

Entre Lisboa e Paris

 

Entre os anos de 1971 e 1986 desenvolve vários projectos de investigação aplicada na área da Microbiologia Médica, que dão origem a mais de quatro dezenas de publicações científicas, na sua maioria, publicadas em reputadas revistas estrangeiras. Em França é distinguida, em 1975, com o grau de “Chevalier de l’Ordre des Palmes Academiques”. Em 1977 forma-se em “Docteur d’État és-Sciences Pharmaceutiques”, pela Universidade de Paris-Sud, com a classificação de “Trés Honorable”. Ao mesmo tempo, em Portugal, torna-se professora Auxiliar na FFUL na disciplina de Microbiologia, membro do Conselho Científico da FFUL e, em 1979, professora associada da FFUL até 1986 nas disciplinas Microbiologia e Virologia.

 

No início da década de 1980, e durante um congresso a que assiste, em Lausanne, Suíça, a convite da Sociedade Suíça de Higiene Hospitalar e da Féderation International des Hôpitaux, toma conhecimento, pela primeira vez, da ameaça de uma nova doença: a sida (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida).

 

“Nunca tinha ouvido coisa semelhante e comecei a interessar-me. Tinha o pressentimento de que era uma desgraça muito grande...” Luc Montagnier, investigador do Instituto Pasteur, em Paris, era o líder do estudo que havia descoberto o HIV1. Odette Ferreira conhece bem o Instituto Pasteur e integra a equipa de Montagnier. 

 

Reputação internacional 

 

Em Portugal nada se sabe sobre a doença. Preocupada com o que possa ocorrer no país, a investigadora dedica-se de “corpo e alma” à batalha contra a sida. Inicia em Lisboa os primeiros estudos seroepidemiológicos sobre a infecção pelo HIV. Chama a atenção dos governantes e, junto da população, é a face visível dessa mesma batalha.

 

Num dos regressos ao Instituto Pasteur, Odette leva na bagagem amostras retiradas de um doente, internado no hospital Egas Moniz, em Lisboa, sobre o qual recaíam suspeitas de estar contaminado pelo vírus da sida. Apesar de a análise serológica teimar em dar negativo, pede para que tirem uma foto ao vírus isolado. “Algum tempo depois de chegar a Lisboa recebi um telefonema. Era um investigador do Instituto Pasteur e não existiam dúvidas: estávamos perante o HIV tipo 2 - o novo vírus da sida”. 

 

Luta contra a sida

 

Por detrás da intensa dedicação à investigação e ao ensino esconde-se, no entanto, um grande desgosto. Paralelamente ao sucesso profissional, Odette perde, no início da década de 1980, o seu marido. «Tornei-me uma workhoolic. Para tentar superar a perda trabalhava quase 24 horas por dia». 

 

Depois da descoberta do HIV2, e prosseguindo as investigações com a equipa francesa, realizam-se vários estudos na África Ocidental que mais tarde demonstrariam que o novo vírus era igualmente patogénico e estava associado à sida. Seguem-se muitos outros estudos, conferências, prémios e distinções. Em 1992 é nomeada coordenadora da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida (CNLCS), cargo que ocupa até 2000. 

 

Contudo, após ter saído da CNLCS, a reputada investigadora, apesar dos seus 79 anos, continua o seu caminho na luta contra a sida junto da população, quer seja nos almoços com os habitantes da Casa Amarela, um dos locais que alberga doentes com sida em Lisboa, quer seja nas caminhadas de luta contra a droga pelo antigo Casal Ventoso, também na mesma cidade.

 

De facto, a vida calma, longe dos problemas sociais, que partilhava em família nos finais dos anos 60 nunca mais foi a mesma: “Tem sido uma experiência humana que não se consegue esquecer.”

 

Artigo realizado em 2001 e revisto em 2009

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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