Música ajuda a resgatar a memória em doentes com Alzheimer
12 abril 2009
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Os efeitos benéficos da música na saúde são hoje cada vez mais estudados pela ciência. Mas a ideia de que a música influi no bem-estar das pessoas já é mencionada nos escritos dos filósofos da Antiguidade Clássica. Aliás, Pitágoras denominava a terapia pela música de purificação.

 

Embora se reconhecessem as virtudes terapêuticas da música, só na segunda metade do século 20 é que a comunidade médica despertou verdadeiramente para as suas potencialidades na recuperação dos doentes.

 

No final da II Guerra Mundial, alguém teve a ideia de chamar músicos para tocar nos hospitais que estavam repletos de soldados convalescentes. Como a experiência surtiu resultados positivos, as autoridades médicas dos EUA tomaram a decisão de habilitar profissionais para a utilização criteriosa da música como terapia.

 

Desde essa data até à actualidade, o interesse por esta aplicação da música não esmoreceu e muita investigação relevante foi entretanto realizada. Num dos mais recentes trabalhos, publicados na revista “Cerebral Córtex”, investigadores da Universidade da Califórnia, nos EUA, liderados por Petr Janata, monitorizaram a actividade cerebral de um grupo de voluntários enquanto ouviam música. A principal conclusão deste estudo foi que a região do cérebro associada à música também está associada às memórias mais vívidas da pessoa.

 

A área do cérebro activada durante a experiência foi o córtex pré-frontal. Trata-se, curiosamente, da mesma área que é afectada pela doença de Alzheimer.

 

Neste trabalho, os cientistas avaliaram 13 pessoas, todos eles estudantes da Universidade da Califórnia. Os voluntários foram postos a ouvir excertos de 30 canções diferentes através de auscultadores, enquanto lhes era medida a actividade cerebral por meio de um exame de ressonância magnética.

 

Para aumentar a probabilidade de os estudantes associarem algumas das canções a lembranças do passado, foram seleccionados os grandes êxitos musicais do período em que cada voluntário tinha entre oito e 18 anos.

 

Depois de ouvirem cada excerto de música, os participantes responderam a várias perguntas, entre elas, se a música era conhecida e se estava associada a algum acontecimento, incidente ou lembrança.

 

Logo após o exame de ressonância magnética, os voluntários completaram um questionário sobre o conteúdo e a intensidade das lembranças que cada canção familiar tinha despertado.

 

Cada participante reconheceu entre 17 e 30 músicas. Dessas, cerca de 13 estavam associadas, moderada ou fortemente, a uma lembrança autobiográfica. Os cientistas verificaram que as músicas que estavam associadas às recordações mais importantes foram as que provocaram as respostas mais emotivas.

 

Mais tarde, comparando os questionários com as imagens registadas pelos resultados da ressonância magnética, foi verificado que o grau de importância da lembrança era proporcional à quantidade de actividade no córtex pré-frontal do estudante.

 

O líder da investigação não tem dúvidas de que a música pode funcionar como um potente estimulante no reavivar das recordações e que ela pode contribuir para que, por exemplo, doentes com Alzheimer não percam a memória na sua totalidade.

 

Em entrevista à BBC, o líder da investigação, Petr Janata, acentuou que os resultados do estudo podem ajudar a explicar por que razão a música desperta reacções fortes em pessoas com Alzheimer. "O que parece acontecer é que uma música conhecida serve de trilho sonoro para um filme mental que começa a tocar na nossa cabeça", disse o especialista, explicando que, através da música, o doente pode trazer "de volta as lembranças de uma pessoa ou de um lugar, e, de repente, pode ver o rosto daquela pessoa na sua mente".

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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