Morrer em casa é menos traumático para doentes e familiares
24 setembro 2010
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O fim da vida de alguém que nos é querido é uma etapa cheia de angústia, tristeza profunda e sentimentos ambíguos, desde a esperança que sobreviva, ao desejo de que o sofrimento acabe depressa, mesmo que seja com a morte. Estas experiências tão negativas e com níveis extremos de ansiedade podem conduzir a stress pós-traumático, em especial se a morte do familiar ocorrer num hospital.

 

Num estudo, publicado no “Journal of Clinical Oncology”, que acompanhou familiares de pacientes que morreram numa unidade de cuidados intensivos (UCI) verificou-se que estes apresentaram uma probabilidade cinco vezes superior de serem diagnosticados com stress pós-traumático, em comparação com os cuidadores dos pacientes que morreram em casa com cuidados médicos e de enfermagem."Este é o primeiro estudo a mostrar que os cuidadores dos pacientes que morrem nas UCI apresentam um risco aumentado de desenvolver stress pós-traumático", referem os autores do estudo, do Dana-Farber Cancer Institute em Boston, EUA, em comunicado enviado à imprensa.

 

Os sintomas de stress pós-traumático consistem em "sentimentos de ansiedade vividos após um acontecimento particularmente stressante, que incluem sonhos recorrentes, dificuldade em adormecer e sentimento de isolamento".

 

Além disso, os familiares e amigos dos pacientes que morreram no hospital, embora não numa UCI, tinham um risco elevado de sofrer de uma patologia designada pelos cientistas como “Prolonged Grief Disorder” (luto prolongado) que pode incluir sintomas debilitantes e persistentes de dor que causam incapacidade funcional. Estes sintomas podem estender-se por mais do que os seis meses de luto considerados “normais” para que nos adaptemos à ausência do ente querido e consigamos obter algum prazer das relações que temos com os outros.

 

Durante seis anos, de 2002 a 2008, a equipa do Dana-Farber, liderada por Holly Prigerson, que é chefe do serviço de Psico-Oncologia e Cuidados Paliativos daquele instituto, acompanhou dois familiares de 342 pacientes com cancro em fase terminal. Desse total, 19 morreram na UCI e 137 em casa.

 

Os doentes e os seus familiares foram entrevistados no início do estudo.  A condição clínica dos familiares foi analisada nessa altura e depois da morte dos seus entes queridos, cerca de 4,5 meses depois. Duas semanas após a morte, os investigadores entrevistaram o familiar mais envolvido na prestação de cuidados ao paciente durante a última semana de vida e voltaram a fazê-lo seis meses mais tarde.

 

Nas entrevistas, os investigadores pediram que os familiares avaliassem a qualidade de vida dos pacientes e o stress físico e psicológico durante a última semana de vida destes. Também foi pedido que avaliassem a sua própria saúde mental no início do estudo - de modo a despistar todas as doenças psiquiátricas pré-existentes - e, novamente, seis meses após a morte do paciente.

 

Após analisarem os dados das entrevistas antes e após a morte, os investigadores notaram que 21% dos familiares dos doentes que morreram na UCI desenvolveram stress pós-traumático. Por outro lado, esse distúrbio foi notado em apenas 4,4% dos familiares dos pacientes que morreram em casa. Um risco elevado de doença semelhante, mas de luto prolongado, foi verificado nos familiares dos pacientes que morreram no hospital, mas não na UCI. O estudo também apontou o facto de, apesar de a maioria dos pacientes com cancro preferir passar os seus últimos dias em casa, 36% morrem num hospital e 8% numa UCI.

 

Para o oncologista Alexi Wright, citado em comunicado de imprensa, em casa, os pacientes recebem os cuidados paliativos que aliviam e confortam, permitindo uma morte mais tranquila. Além desse facto ser, por si só, reconfortante para quem vive os seus últimos dias, também o é para os seus familiares que assistem a um menor sofrimento. O especialista lança por isso um apelo sem, contudo, o dirigir a políticos, profissionais de saúde ou familiares: “Se os pacientes estiverem conscientes de que um tratamento mais agressivo afecta não só a sua qualidade de vida, mas também prejudica as pessoas que amam após a sua morte, esses pacientes poderão fazer escolhas diferentes”.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

 

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