Maternidade Impossível: memórias de uma viciada em abortos
06 outubro 2009
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Durante 16 anos, Irene Vilar submeteu-se a 15 abortos. Fazia-os porque não conseguia parar o prazer de sentir que, ao engravidar, se transformava noutra pessoa. O doloroso trajecto de automutilação está contado num livro editado recentemente nos EUA.

 

 “O meu testemunho não resolve o dilema moral dos meus actos. Ainda assim, quero entender o fascínio que uma gravidez exercia sobre mim, o desejo de me tornar alguém ou outra coisa. Guiei-me pelos meus diários. A minha promessa para com o leitor é dar-lhe o testemunho do meu vício, do fluxo constante de infelicidades, um raio X da desilusão e, por fim, da face libertadora da maternidade”.

 

É assim que Irene Vilar, de 40 anos, nascida em Arecibo, Porto Rico, conta no seu livro “Impossible Motherhood” (edição disponível apenas em inglês) o passado que a empurrou para a automutilação.

 

 Enquanto escrevia o livro, ficou grávida pela décima sétima vez, da qual nasceu a sua primeira filha. Apoiou-se na prosa para exorcizar o peso de uma infância e adolescência marcadas pela angústia, a qual a empurraram para uma vida preenchida de compulsões nefastas.

 

 No seu primeiro livro, intitulado “The Ladies' Gallery”, seleccionado em 1999 para o prémio norte-americano “Mind Book of the Year Award”, Irene Vilar conta a história da família. Numa espécie de biografia familiar lembra o caso da sua avó, famosa activista política, que em 1954 liderou o assalto ao Congresso dos EUA para declarar a independência de Porto Rico - e que foi condenada a 27 anos de prisão - e o suicídio da sua mãe, que se projecta de um carro em andamento. Irene tinha apenas oito anos.

 

 Neste mais recente livro, é contada a sua autobiografia. O seu amor adolescente, de apenas 15 anos, por um professor de 53 anos, com quem casou aos 18. Uma relação marcada por graves desequilíbrios, nos quais a escritora ressalta o facto de o marido ter uma predilecção por mulheres mais jovens - na verdade, adolescentes como as suas alunas -, de se vangloriar de as suas relações nunca durarem mais de cinco anos e de ter a convicção de que o facto de uma mulher ter filhos matava o desejo sexual.

 

 Emocionalmente dependente da relação, Irene submeteu-se a 15 abortos e tentou várias vezes o suicídio. “Metade das minhas gravidezes ocorreu durante os três primeiros anos de vida em conjunto. Cada vez que tinha o período ficava triste. Cada vez que descobria que estava grávida, era um misto de excitação e medo.

 

 Estar grávida era uma casa de espelhos onde entrei e me perdi, insensível às realidades: às de um feto, aos desejos do meu parceiro e à impossibilidade da maternidade”.

 

 Na apresentação do livro no seu sítio da internet, Irene Vilar refere que não usava o aborto como um método contraceptivo; ela sabotava, inconscientemente, o uso da contracepção como forma de se automutilar, evitando, assim, sentir o vazio. “Ficar grávida começou a ser simplesmente um hábito. Se eu não estivesse grávida, algo estava errado, mais errado do que aquilo que já estava errado.”

 

 O corte com esse ciclo vicioso ocorreu após a morte do marido. Irene refez a vida, tem 40 anos, duas filhas, uma de três e outra de cinco. E confessa, sem hesitações: “Sim, fui viciada em aborto e não preciso de um bode expiatório. Tudo pode ser explicado, justificado(...) Tudo… excepto as vidas interrompidas, um fardo que morrerá comigo.”

 

 Irene Vilar fez paralelamente uma carreira profissional de sucesso, é agente literária na Vilar Creative Agency e na Ray-Gude Mertin Literary Agency.”

 

 Além de outros locais de venda na internet, as suas obras estão disponíveis no sítio da escritora .

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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