Luís Archer: "Padre de coração, cientista de profissão"
23 janeiro 2009
  |  Partilhar:

Três licenciaturas e dois doutoramentos, com as bactérias a cruzarem-lhe a vida. Formou-se em biologia, mas afastou-se da ciência. Quando voltou já era sacerdote e dedicou a vida à investigação por ser esta a sua “missão”.

 

Nasceu na Foz do Porto, a 5 de Maio de 1929. Teve uma infância feliz, marcada pela música - quase concluiu o curso de piano do conservatório de Música do Porto. Estudou no Liceu Rodrigues de Freitas e entrou para Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde concluiu a sua licenciatura em Ciências Biológicas. 

 

Estamos no ano de 1947, e Luís Archer, com apenas 18 anos, recebe o seu primeiro troféu, ao ser distinguido pelo Rotary Club por ter sido, neste ano, o aluno licenciado com a mais alta classificação em todas as licenciaturas da Faculdade de Ciências do Porto.

 

Ficou como professor assistente na faculdade e começou a dedicar-se à investigação aos 19 anos. Aos 21 anos já tinha dois trabalhos científicos publicados. É nessa altura que acontece uma viragem na sua vida. Depois da formação científica da juventude, Luís Archer “apaixonou-se por Deus” e entra na Companhia de Jesus. “Uma paixão não se explica. Talvez eu sentisse que a ciência, pela racionalidade que exige, é uma coisa fria; são os profissionais da dúvida. E talvez, como reacção, eu achasse que havia coisas na vida que me dariam maior satisfação. Comecei a ler a vida de pessoas que tinham dedicado a vida a Deus. E a determinada altura, achei que queria arriscar... Deixei a faculdade, onde já tinha um percurso marcado”. Entra na Universidade dos Jesuítas, em Guimarães, onde efectua dois anos em estudos de humanidades, depois mais três para concluir a licenciatura em Filosofia, na Universidade de Braga, e, por fim, quatro anos na Alemanha onde se licencia em Teologia. 

 

Desencontros 

Aos 33 anos foi ordenado padre na catedral da cidade alemã de Frankfurt. “E vivi deslumbrado com esta nova vida durante três anos. Não queria voltar à biologia, alegando, naquela altura, ir demasiadamente contra as minhas inclinações e gostos”. Mas a ordem religiosa decidiu-lhe o caminho. A sua missão seria mesmo a biologia. No ano de 1962 Luís Archer tomou, então, contacto com o que era o ADN (ácido desoxirribonucleico), cuja descoberta esteve a cargo dos cientistas James Watson e Francis Crick, vencedores do prémio Nobel da Medicina nesse mesmo ano. 

 

Longe do que se fazia lá fora e ainda mais distante da ciência, Archer voltou a despertar para a ciência quando, no início da década de 60, se começou a falar da nova Genética. “Os professores diziam-me que se fosse para a América e me formasse em genética molecular tinha a possibilidade de ser o primeiro em Portugal”. E foi. Chegou a Washington DC, EUA, com uma mala cheia de sonhos. Aos 38 anos, em 1964, ingressa como estudante livre na Universidade de Georgetown. Bioquímica e genética molecular foram as cadeiras escolhidas. “Foi como um salto no escuro”. Começou tudo do princípio e ficou nos EUA por quatro “duros” anos. “Estava a aprender coisas que se ensinam a pessoas com metade da minha idade”. A “fúria de aprender” possuiu-lhe a alma. Estudou, investigou, e, em menos de um ano, publicou três artigos. Na véspera do seu 40º aniversário fez a primeira comunicação científica. “Ficava espantado com as coisas que podia aprender. Era tudo a uma velocidade espantosa...Em termos de técnica havia tudo nos EUA.” Entretanto, em Portugal estava tudo na mesma. Ninguém sabia muito bem o que era a Biologia Molecular. Archer atravessou o atlântico, já doutorado em genética molecular, e iniciou uma campanha a favor do ADN. Começou uma nova etapa com objectivos bem definidos. Lançar a nova Genética em Portugal nas áreas da investigação, mas também nas Universidades.

 

Durante a década de 70, difunde as informações sobre genética em aulas leccionadas através da televisão. A tudo isto, Archer chama carinhosamente de “shows” de ADN. A Gulbenkian oferece-lhe o lugar no instituto de investigação, a tempo inteiro, onde esteve durante 20 anos como “rato de laboratório e, a o mesmo tempo, ia fazendo os seus “shows” de nova Genética pelas Universidades.

 

Ética na Genética

Durante anos, Archer dedicou-se quase em exclusivo à investigação, mas na década de 70 volta a sentir necessidade de mudar de rumo. Pelo mundo científico emergiam os problemas éticos do uso dos organismos geneticamente modificados (OGMs). “Comecei a ver que tudo aquilo que eu fazia nas bactérias se começava agora a aplicar-se no Homem”, refere, acrescentando que era “necessário humanizar a ciência”.
 

Com a sua formação em filosófica e biologia entrou, nessa altura, na área da Bioética. Escreveu artigos, integrou e chefiou comissões e foi eleito presidente da Comissão da Ética para as Ciências da Vida.

 

Hoje não duvida que a sua “missão” era mesmo a biologia. “Mas a minha paixão da juventude, ser jesuíta e dedicar a minha vida a Deus, manteve-se sempre.” No meio dos múltiplos afazeres profissionais, Archer celebra a eucaristia, sempre na esperança de “que as pessoas saiam diferentes”.

 

Artigo realizado em 2001 e revisto em 2009

 

Paula Pedro Martins
jornalista

Partilhar:
Classificações: 6Média: 4.8
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.