Jorge Atouguia: Um investigador sem tempo para hobbies
07 janeiro 2009
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Médico, investigador e professor nas áreas de Infecciologia e Medicina Tropical. Jorge Atouguia reparte as suas horas pelas múltiplas tarefas diárias. Seria médico a tempo inteiro, caso fosse “obrigado” a optar. Ainda bem que não foi obrigado... porque é um brilhante investigador. Mas no meio de tanta azáfama diária, só se queixa de não ter tempo para hobbies.

 

Jorge Atouguia é médico há mais de 20 anos. Tem 45 anos e uma brilhante carreira como investigador na área de Medicina Tropical, uma especialidade ainda pouco comum em Portugal. Além de director da Unidade de Ensino e Investigação de Clínica das Doenças Tropicais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), também dirige e faz atendimento clínico da Consulta de Medicina das Viagens e Medicina Tropical do IHMT. Além disso, realiza colóquios, palestras e actividades científicas. Um quotidiano que, em certos dias da semana, é também repartido pelo consultório particular. Por isso, é normal que o tempo não lhe dê para tudo.
 

O que fica de lado são, obviamente, o tempo que deveria dedicar a si próprio. Dos seus interesses conta-se a informática, a leitura de revistas técnicas e a experimentação de CD-ROMs. “Mas só quando posso”, comenta.

 

Levanta-se às 8h30, mora em Belém, numa das zonas mais bonitas de Lisboa, e, apesar de estar a poucos minutos a pé do IHMT, vai de carro. “Quando mudar de casa passo a fazer uma caminhada até aqui”, promete. O seu dia acaba quase sempre depois das 20h00. “Mas depende muito do que tenho para fazer, pode ser mais cedo ou mais tarde”. Ao fim-de-semana troca as aulas, a investigação e o consultório pela casa de campo, perto de Óbidos. É lá que descontrai da semana, mas que, segundo comenta com um irónico sorriso, não pode navegar pela internet, por não ter electricidade da EDP.

 

Percurso

 

No início da década de 80, Jorge Atouguia era, então, um jovem médico em formação no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Foi na Unidade de Doenças Infecciosas daquele hospital que aconteceu, segundo recorda, um dos “momentos mais bonitos”da sua carreira. Corriam os anos de 1982/83 quando começaram a ser diagnosticados, em Portugal, os primeiros casos de SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida). A comunidade científica já havia tomado conhecimento do VIH-1 (Vírus da Imunodeficiência Adquirida), quando a equipa integrada por Jorge Atouguia isolou, pela primeira vez na história da Medicina, o VIH-2. O que terá sentido, nessa altura, o investigador? Jorge Atouguia não subestima o feito. Relativiza-o: Observados “a posteriori foram grandes momentos. Mas na altura são vividos com alguma preocupação e tensão, porque eram doentes extremamente graves sem nós sabermos o porquê. É claro que nestas situações não estamos a pensar que estamos a fazer investigação.” Mais tarde, e pelo seguimento de protocolos clínicos na experimentação de novos fármacos, o IHMT foi também pioneiro na elaboração do Itracanozol para o tratamento de doenças fúngicas. A especialidade de Medicina Tropical tinha sido a eleita de Jorge Atouguia.

 

A razão de tal escolha deveu-se, segundo o especialista, ao seu estágio numa unidade de infecciologia e Medicina Tropical, no Egas Moniz, e a ter como mestre o doutor José Luís Champalimaud, “que era um grande tropicalista com muita experiência de África e um excelente clínico que nos passou para toda esta informação”.

 

Futuro 

 

Há décadas que grupos de investigação não se cansam de apregoar possíveis datas para o lançamento de uma vacina contra a SIDA. Mas Jorge Atouguia não acredita que tal esteja para breve. “Cada vez mais há a necessidade de uma vacina regional devido às características de variabilidade do vírus”. Acredita, no entanto, no percurso lógico pelo qual passará a doença. “A sida tornar-se-á numa doença crónica, como a diabetes, mantendo o vírus em maior latência possível, com o mínimo de fármacos – uma única toma – e sem efeitos secundários”.

 

De positivo no mundo da investigação, Atouguia refere que, no futuro, aparecerão novos medicamente menos tóxicos e com formulações mais práticas; novas vacinas e vacinas combinadas; fármacos mais eficazes para algumas doenças crónicas infecciosas. Mas, ao invés, vão continuar a existir doenças resistentes aos antibióticos. O panorama mundial pode, segundo o investigador, tornar-se problemático em termos de doenças emergentes. A globalização das doenças é uma preocupação crescente. A malária ou mesmo o dengue podem chegar à Europa.

 

Artigo realizado em 2001 e revisto em 2009

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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