Helicobacter pylori tem papel protector do intestino
01 dezembro 2010
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Uma bactéria existente no estômago de 50% da população mundial tem vindo a ser associada a alguns tipos de cancro, e, felizmente, muitas patologias têm sido travadas com tratamento. Mas estudos recentes têm trazido cada vez mais dados de que esta bactéria também tem aspectos positivos e protectores de outras doenças.

 

Segundo comparações genéticas, historicamente, a Helicobacter pylori (H. pylori), uma bactéria que coloniza o muco que reveste a superfície do estômago, teve origem na população africana que, através de ondas migratórias, a propagou por todo o planeta. Mas, apesar de ancestral, a H. pylori só foi identificada na década de 80 por dois cientistas australianos Warren e Marshall que, com a descoberta, arrecadaram o prémio Nobel da Medicina em 2005.

 

Dado ser uma descoberta recente, a ciência continua a tentar encontrar ligação entre esta bactéria e o aparecimento de doenças. Actualmente, recomenda-se a erradicação da bactéria nas pessoas que tenham úlcera do estômago, úlcera do duodeno e linfoma MALT, dado o perigo de estas doenças desenvolverem carcinomas. A bactéria adquire-se por via oral-oral ou fecal-oral, geralmente na infância, e estima-se que esteja presente em metade da população mundial.

 

E, se é verdade que o tratamento para matar a bactéria revolucionou o tratamento da úlcera do estômago e do duodeno, proporcionando a cura destas doenças em muito casos, também é verdade que alguns estudos têm vindo a confirmar que a bactéria nos protege contra algumas patologias, nomeadamente, a doença do refluxo gastro-esofágico e o adenocarcinoma do esófago. Neste momento da investigação científica mundial, novos estudos sobre a bactéria vão trazendo provas científicas dos benefícios da H. pylori noutras doenças.

 

Num estudo publicado este mês na revista “Inflammatory Bowel Diseases”, investigadores da University of Michigan, EUA, mostraram que a H. pylori no estômago de ratinhos travava os efeitos da inflamação do cólon, causada pela Salmonela, através da alteração da resposta imune no trato gastrointestinal inferior. "Se nós evoluímos para viver com certos organismos, talvez haja uma razão para isso", disse o líder da investigação, Peter Higgins, professor de gastroenterologia do departamento de medicina interna da University of Michigan, referindo que este estudo demonstra que a presença de H. pylori no estômago poderá ter efeitos benéficos noutras partes do corpo.

 

Neste estudo, os roedores foram infectados com H. pylori, de modo a desenvolverem tolerância imunitária durante um mês, para depois disso, serem infectadas com a bactéria salmonela, que induz a doença inflamatória intestinal. Estes dados agora descobertos fornecem, pela primeira vez, provas de que a H. pylori no estômago altera o ambiente imunológico do tracto gastrointestinal e diminui a intensidade da inflamação intestinal provocada pela salmonela.

 

Deste modo, foi, com enorme contentamento que os cientistas receberam os resultados deste novo estudo. Em comunicado enviado à imprensa, John Kao, co-autor do estudo e professor assistente do departamento de medicina interna da mesma universidade, classificou a descoberta de "surpreendente”, dado que, segundo explicou, “a H. pylori infecta o estômago mas não o cólon, parecendo ter um efeito mais global sobre o sistema imunitário do intestino”.

 

De facto, refere o cientista, estes dados podem ajudar a explicar porque as pessoas de regiões onde o H. pylori é mais prevalente - como a Ásia e a África - têm menos doenças inflamatórias intestinais (DII), tais como a colite ulcerosa e a doença de Crohn.

 

Estima-se que na população africana, assim como na maioria dos países em desenvolvimento, incluindo neste caso Portugal, a bactéria esteja presente em 90% da população adulta. Mas estes novos dados podem, segundo John Kao, ajudar a explicar a razão da infecção por H. pylori ser tão comum.

 

Analisando a História da humanidade, o cientista refere que a infecção por salmonela foi fatal à população de Atenas, facto que conduziu à ascensão de Esparta. E também terá sido a responsável pela morte prematura de Alexandre, o Grande. Deste modo, “faria sentido que tantos seres humanos sejam portadores da bactéria H. pylori, se ela realmente reduz a gravidade da inflamação causada pela salmonela”.

 

Higgins não recomenda, no entanto, que os pacientes com DII devam ser infectados com H. pylori, mas adverte a medicação destinada a combatê-la em certas situações. "Pode haver uma razão para co-existirmos com a H. pylori. Talvez não devamos ser tão rápidos em eliminá-la nos pacientes que não têm úlceras gástricas ", refere Higgins, acrescentando que este facto pode ser particularmente importante nas populações de certas regiões do globo onde a salmonela continua a ser uma ameaça. "Será importante para os investigadores compreender outras relações, por exemplo se a H. pylori está associada com a redução da gravidade de outras infecções intestinais como a cólera ou a infecção por Clostridium difficile. Contudo, muitos mais estudos serão necessários para verificar se a H. pylori pode realmente prevenir a doença inflamatória intestinal".

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

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Comentários 2 Comentar

BACTERIA NO ESTOMAGO NA INFANCIA

minha enteada, tem 6anos e esta com bacteria no estomago sem muita dor qual medico especialista procurar?ela senti muita dor,o que causa isto?

H pylori

Olá. Fui diagnosticado com gastrite em uma determinada parte do estomago: Antro. Gostaria de saber se é possivel ser motivo da bactéria ou a caracterisca de ser somente em uma parte do estomago anula a possibilidade de eu possuir a bactéria. Grato

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