Festas da gripe suína preocupam autoridades de saúde
06 julho 2009
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Vários anúncios colocados em sítios e blogues britânicos e norte-americanos publicitam festas e encontros entre pessoas saudáveis e portadores de gripe A (H1N1), também designada por gripe suína. O objectivo é contraírem gripe para adquirirem imunidade contra o vírus antes que este apresente mutações e se torne mais letal. Os especialistas consideram esta prática como uma roleta russa.

 

O portal de notícias norte-americano NBC relatou o caso de um estudante universitário de Nova Iorque que colocou uma mensagem no Facebook a anunciar a organização de uma festa de gripe suína. No sítio, o anfitrião sugere: "seja você mesmo. Apanhe gripe suína. Beije alguém com gripe".

 

Oferta similar apareceu no fórum do sítio rant-nation.com onde se publicita uma festa de gripe suína em Cancun, no México, país onde se terá iniciado a epidemia, em Abril deste ano.
 

Num fórum do curezone.com um utilizador fala das festas com entusiasmo, divagando sobre o que se poderá fazer para contrair gripe: “espirrar uns contra os outros, apertar as mãos, tocar as mesmas harmónicas e flautas, beber pelos mesmos copos e praticar o beijo francês”.

 

Embora muitos destes anúncios sejam apenas provocações, as autoridades de saúde pública britânica e norte-americana já emitiram comunicados nos quais alertam as pessoas para não realizarem este tipo de encontros.

 

Na semana passada, na BBC, o presidente do comité de saúde pública da British Medical Association, Richard Jarvis, alertou para o facto de este tipo de comportamento poder minar os esforços dos profissionais de saúde na luta contra a gripe. O especialista enfatizou que, embora a gripe provoque uma doença leve, essas pessoas podem estar a colocar a sua saúde e a das suas crianças em risco.

 

O médico admitiu que contrair o vírus agora pode dar imunidade, mesmo que o vírus sofra algum tipo de mutação e se torne mais agressivo. Mas acrescentou que, se as pessoas procurarem intencionalmente o contágio, os serviços de saúde podem não ser capazes de continuar a actuar como estão a fazer agora - dando antivirais aos infectados e às pessoas que estiveram em contacto com eles e colocando os doentes em isolamento - facto que irá contribuir para o alastramento da epidemia.

 

"Se chegarmos a um ponto em que a contenção não é mais possível, não vamos ser capazes de monitorizar os casos ou administrar antivirais com tanta rapidez. Será que então vamos considerá-lo um vírus não muito agressivo?".

 

O facto de se estar a conseguir conter a propagação do vírus é, seguramente, benéfico, uma vez que estamos mais perto de uma vacina preventiva, assegurou o responsável.

 

Em entrevista ao jornal “New York Times”, Anne Moscona, infecciologista, especialista em gripe do Weill Medical College, da Cornell University, EUA, classificou este comportamento como verdadeiramente louco. “Compreendo o pensamento, mas temo que não saibamos o suficiente sobre como reage o vírus em cada pessoa. Parece-me uma situação semelhante ao que ocorria na Idade Média, quando as pessoas se contaminavam deliberadamente com varíola. É uma situação perigosa, tratar da imunidade pelas suas próprias mãos.”

 

Gripe espanhola

 

A ideia de que contrair um vírus da gripe menos agressivo garante imunidade contra as posteriores vagas de gripe, possivelmente mais letais, terá surgido por causa do que ocorreu aquando da epidemia de gripe espanhola (1918-19). Vários estudos constataram que quem foi infectado na primeira fase de propagação do vírus da gripe ficou imunizado contra as vagas seguintes, mais severas, facto que provavelmente lhes terá salvado a vida.

 

Aliás, um estudo recente, encomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e publicado na revista “Science”, refere que, ao contrário da gripe sazonal, o H1N1 afecta sobretudo jovens adultos e crianças. No estudo, os cientistas do Imperial College London, liderados por Christophe Fraser, referem que, embora não tenham dados concretos, o fenómeno acontece devido ao facto de os mais velhos estarem protegidos por terem sido expostos na infância ao vírus H2N2, responsável pela pandemia de 1957.

 

Contudo, não serão necessárias festas para se conseguir contrair a gripe A, uma vez que a epidemia alastra a cada dia que passa. À data, os registos contabilizam mais de 77 mil infectados e 332 mortos em todo o mundo. Ainda na semana passada, o ministro da Saúde britânico afirmou que o número de novos casos de gripe A no país poderá chegar aos 100 mil por dia até ao final de Agosto, dado o aumento significativo das últimas semanas.

 

É esta situação que é temida pelos governantes, dado que ela poderá conduzir à ruptura de stocks de antivirais e à sobrelotação dos hospitais. Mas, com o avançar do Inverno no hemisfério Sul, e com o aumento das viagens de Verão dos habitantes do hemisfério Norte, a tendência será para um alastramento da gripe, que parece propagar-se mesmo nas regiões mais quentes, ao contrário da gripe sazonal.

 

Por enquanto, e embora estejamos no grau mais elevado de alerta de epidemia decretado pela OMS, o pior ainda não aconteceu: o vírus ainda não é muito agressivo, mas uma mutação poderá torná-lo letal…

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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