Facebook pode mudar a estrutura do cérebro?
11 novembro 2011
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As redes sociais da Internet podem estar a mudar o cérebro das pessoas, bem como as suas vidas sociais, sugere um estudo publicado na “Proceedings of the Royal Society B Biological Sciences”, que através de imagens de cerebrais verificaram uma ligação directa entre o número de amigos no Facebook e o tamanho de certas partes do cérebro.

 

Apesar de constarem estes dados, os investigadores da Universidade College London, Reino Unido, referem não estar claro se o uso de redes sociais aumenta a massa cinzenta, ou se aqueles com certas estruturas cerebrais são bons a fazer amigos.

 

Segundo os autores da investigação, os voluntários colocados sob avaliação imagiológica demonstraram ter estruturas maiores e mais densas em três áreas do cérebro quando tinham uma grande lista de amigos no Facebook, em comparação com outros que tinham poucos amigos naquela rede social.

 

O Facebook, a rede social mais popular no mundo, tem mais de 800 milhões de utilizadores.

 

As três áreas são todas relacionadas com a capacidade de socialização. "O sulco temporal superior e o giro temporal médio estão associados à percepção social, do olhar das outras pessoas ou de pistas sociais resultantes de expressões faciais", explicou, em comunicado difundido pela Wellcome Trust que financiou a pesquisa, o membro da equipa de investigação, Ryota Kanai. A terceira área, o córtex entorrinal, "estaria associado com a memória para rostos e nomes", acrescentou o especialista.

 

“Não podemos escapar à omnipresença da internet e ao impacto que esta tem sobre as nossas vidas, mas nós sabemos pouco sobre o seu impacto sobre o cérebro, o que sabemos é que é plástico e pode mudar ao longo do tempo ", disse John Williams, chefe de Neurociência e Saúde Mental do Wellcome Trust.

 

O estudo também mostrou que o número de amigos que uma pessoa tem no Facebook reflectia o número de amigos no mundo real. "Encontrámos algumas regiões do cérebro interessantes que parecem apontar para o número de amigos que temos - tanto 'real' como 'virtual'”, explicou ainda Ryota Kanai.

 

De acordo com os investigadores, a questão interessante agora é saber se estas estruturas mudam com o tempo. “Isto ajudar-nos-á a responder à pergunta se a internet está a mudar os nossos cérebros."

 

Uma das regiões cerebrais que também está envolvida é a amígdala, que está associada com a memória e as respostas emocionais.

 

Estudos anteriores já tinham mostrado uma ligação entre o volume de massa cinzenta na amígdala e o tamanho e a complexidade das redes sociais do mundo real. A matéria cinzenta é o tecido do cérebro onde ocorre o processamento mental.

 

Três outras áreas do cérebro estavam relacionadas com o tamanho da rede social virtual da pessoa, mas não o número de amigos do mundo real.

 

Neste estudo, liderado por Geraint Rees, foram recrutados 125 estudantes, 46 deles homens, com idade média de 23 anos. Os seus amigos no Facebook variaram entre poucos até quase mil. A média estimada seria de 300 amigos por voluntário. Os resultados foram, então, analisados, numa procura de dados tendenciosos, com uma amostra em separado, composta por 40 voluntários.

 

Num outro estudo, os cientistas analisaram mais de perto uma subamostra de 65 voluntários para ver se, na estrutura cerebral, havia relação entre o mundo virtual e o mundo real. Além de se submeter a um exame cerebral, o grupo também preencheu um questionário sobre os seus amigos no mundo real.

 

As perguntas incidiam sobre: Quantos amigos tem na sua agenda? Quantos amigos tem mantido desde a escola até à universidade? Quantas pessoas convida para uma festa de aniversário, por exemplo? Quantos amigos tem no Facebook? Estas questões levaram a uma estimativa do tamanho da rede social da pessoa.

 

Ao combinarem os registos de amizade do mundo real com os dos amigos da rede social, os cientistas descobriram apenas uma correlação na substância cerebral. Esta foi detectada numa área denominada amígdala que acredita-se, processe e armazene as memórias de episódios emocionais.

 

Esta associação não foi encontrada nas três áreas cerebrais - o sulco temporal superior, o giro temporal médio ou o córtex entorrinal -, realçadas na primeira experiência. Rees afirmou que isto pode significar que diferentes áreas do cérebro sejam usadas para diferentes formas de socialização.

 

Internet faz mal?

 

Segundo o líder do estudo, Geraint Rees, pouco se sabe sobre o impacto das redes sociais sobre o cérebro, o que levou a especulações de que a internet é algo mau para as pessoas.

 

Em mente estaria uma declaração de um deputado na Câmara dos Lordes britânica que num discurso público disse: “a mente do século XXI seria quase infantilizada, caracterizada por curtos instantes de atenção, sensacionalismo, incapacidade de enfatizar e um senso de identidade instável".

 

Geraint Rees apela à necessidade de mais estudos que comprovem (ou refutem) esta e outras informações. "O nosso estudo ajudará a começar a entender como as nossas interacções com o mundo são mediadas através das redes sociais". E acrescentou: "isso deve permitir começar a fazer perguntas inteligentes sobre a relação entre a internet e o cérebro: questões científicas e não políticas".

 

"Este novo estudo ilustra como investigações bem concebidas podem ajudar-nos a começar a compreender como os nossos cérebros evoluem ou não à medida que se adaptam aos desafios colocados pelos meios de comunicação social."

 

Embora o estudo tenha encontrado uma ligação entre a estrutura do cérebro humano e o tamanho da rede social on-line, não foi testada a causa e efeito. Por outras palavras, não é possível, a partir dos dados recolhidos, dizer se o facto de ter mais amigos no Facebook conduz a regiões do cérebro maiores, ou se algumas pessoas são “mais aptas” a fazerem amigos. 

 

Por outro lado, em declarações à BBC, Heidi Johansen-Berg, professor de Neurologia Clínica da Universidade de Oxford, disse que o estudo descobriu apenas uma fraca relação entre o número de amigos do Facebook e do número de amigos no mundo real.

 

"Talvez o número de amigos do Facebook esteja mais fortemente relacionado ao tempo que a pessoa passa na internet, quantos anos tem, ou ao tipo de telemóvel que tem", disse, acrescentando que “o estudo não nos pode dizer se a utilização da internet é boa ou má para os nossos cérebros." Mais estudos serão, ainda, necessários.

 

Este artigo teve por base o comunicado de imprensa do Wellcome Trust que financiou a pesquisa.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

 

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