Excesso de informação sobre a gripe A gera ansiedade
30 julho 2009
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O fenómeno de exploração desmedida de determinados acontecimentos pela indústria das notícias não é novo, mas ele tem vindo a crescer exponencialmente, movido por razões puramente económicas que nada têm a ver com o interesse público. Um exemplo desse pecar por excesso tão típico dos meios de comunicação social é a proliferação de informações sobre a gripe A (H1N1), que tem tido como resultado o gerar de ansiedade entre as pessoas.

 

É verdade que estamos a viver uma pandemia de gripe – o vírus encontra-se em circulação em todo o mundo – mas isso não significa que ele seja mais letal do que os restantes vírus Influenza que todos os anos conduzem à morte de milhões de pessoas por todo o globo.

 

É um facto que os meios de comunicação vivem do lucro gerado pelas suas vendas, no caso dos jornais, e da publicidade vendida de acordo com as audiências dos programas, no caso das rádios e dos canais televisivos. Mas será que essa procura de lucro exige que se destaque para abertura de um telejornal o aumento do número de infectados com gripe A em Portugal? Essa notícia não poderia aparecer como numa simples nota de rodapé?

 

O bombardear de informações sobre a gripe A nos canais informativos é contraproducente, gera ansiedade na população, tal como a que foi vivida na década de 80 quando se começou a ouvir falar da sida. Nessa altura, com a divulgação de informações pouco credíveis, desenvolveu-se uma esquizofrenia colectiva e criaram-se mitos perigosos em torno das vias de transmissão da doença, o que conduziu a uma feroz discriminação dos doentes.

 

Não podemos negar que o novo vírus da gripe é, de facto, uma preocupação para todos, porque é um novo vírus (o nosso organismo não o reconhece e, por isso, não tem defesas contra ele); porque pode mutar e tornar-se mais letal, tal como aconteceu com a gripe espanhola de 1918; porque se propaga com rapidez, mesmo no Verão, ou seja, fora da época normal de contaminação dos vírus da gripe. E, acima de tudo, porque não existe uma vacina preventiva, pelo que os grupos de risco estão ainda mais vulneráveis.

 

Mas é urgente haver contenção na quantidade de notícias sobre o assunto, assim como no cuidado posto na observação da relevância das mesmas para o leitor, de modo a que não sejamos perigosamente desinformados.

 

Em entrevista à agência Lusa, o psicólogo Álvaro Cartas defendeu que devido “ao carácter mediático que a doença atingiu, esta tem um efeito psicológico no doente, como se se tratasse de uma doença com as dimensões da sida”. Na verdade, numa reportagem realizada pela RTP, em que foram entrevistadas várias pessoas que contraíram gripe A, quase todas referem que o isolamento a que foram submetidos bem como a discriminação dos outros quando sabiam que eles tinham tido gripe A lhes criou um grande mal-estar interior.

 

Por isso, a divulgação de mensagens que esclareçam e acalmem a população é uma das melhores armas contra a doença. Ainda este mês, em visita a Portugal, a Comissária Europeia da Saúde, Androulla Vassiliou, defendeu, por exemplo, que desencorajar as viagens não ajudará a resolver o problema da propagação do vírus da gripe A. Recorde-se que, em tempos de Verão, uma das consequências do avolumar de informações sobre a gripe A, tem sido a alteração do plano de férias de muitos portugueses.

 

O importante, defende a especialista, assim como já o fez a Organização Mundial de Saúde (OMS) e muitos outros médicos, é reforçar as medidas de prevenção individuais: lavar frequentemente as mãos com água e sabão e evitar locais fechados e com grande aglomeração de pessoas. E, tão importante quanto a prevenção é procurar um médico ao aparecimento dos seguintes sintomas: febre alta, tosse, dores musculares, cansaço, diarreia, vómitos, irritação nos olhos e secreção nasal.

 

Caso cumpra com as recomendações, não terá razões para viver ansioso e, já agora, para não gozar, em pleno, os seus dias de férias.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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