Envelhecer é doloroso em Portugal
30 Outubro 2009
  |  Partilhar:

Na semana em que se comemorou o Dia Mundial da Terceira Idade, vários alertas sobre questões relacionados com este tema assinalaram a actualidade informativa nacional. Um estudo da DECO (Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor) veio lembrar um grave problema vivido por uma larga fatia da população portuguesa: cerca de 40 mil idosos passam fome.

 

Embora não sejam novidade para muitos, especialmente para os que contactam com pessoas desta faixa etária, estes números não deixam de ser chocantes.

 

O estudo da DECO teve por base um questionário enviado em Fevereiro e Março deste ano para uma amostra representativa da população, entre os 65 e 79 anos, que vive em casa. Mais de 3.400 idosos contribuíram com a sua experiência para o estudo. Os cerca de 40 mil casos de fome entre os idosos portugueses foram extrapolados, tendo em linha de conta os resultados do questionário feito aos 3.400 inquiridos. Nesse pequeno universo, os investigadores da DECO também verificaram que 3% dos inquiridos passou fome na semana anterior a responderem às perguntas.

 

A razão mais apontada para comer mal foram os problemas dentários (35%), mas dificuldades económicas foram também apontadas por 24% dos inquiridos.

 

Estes números são de tal modo preocupantes que nos fazem temer o nosso próprio envelhecimento - não pelas razões estéticas que são motivo de preocupação para muitos - mas por questões de mera sobrevivência. É urgente dar uma resposta às dificuldades destes 40 mil idosos. O número redondo é um aviso para o muito, quase tudo, que há a fazer para mudar, a nível social e político, o modo como se envelhece no país.

 

Ainda esta semana, Luísa Figueira, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, em entrevista à agência Lusa a propósito do Dia Mundial da Terceira Idade, referiu outro dado inquietante: estima-se que cerca de 15% da população desenvolva um primeiro episódio depressivo depois dos 65 anos. O presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, Manuel Carrageta, considerou esta situação, de facto, “preocupante”.

 

É que, justifica o especialista, com o avançar da idade, é inevitável ver partir amigos e familiares, ao mesmo tempo em que as capacidades físicas vão diminuindo. Todas estas perdas conduzem ao isolamento e ao aparecimento de várias doenças, inclusive a depressão. Por isso, o especialista reforçou a importância de as pessoas idosas terem um papel activo na sociedade. “A vida deve continuar a fazer sentido, com projectos que as façam sentir realizadas”.

 

Mas será que a vida faz sentido quando se é colocado num lar onde mais nada há a fazer a não ser esperar pela morte? Na verdade, com muitas e boas excepções, grande parte dos lares de terceira idade em Portugal funcionam como depósitos de seres humanos, nos quais os idosos passam um dia igual ao outro, onde são tratados de um modo infantil e empurrados para o alheamento e uma desistência gradual da vida. Será que ser idoso é sinónimo de terminar os dias a olhar pela janela de um lar?

 

Dentro desta perspectiva, Constança Paúl, professora e investigadora nas áreas da gerontologia, psicologia da saúde e psicologia do desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto, considera que a institucionalização dos idosos nos lares devia ser "uma solução de último recurso, para níveis de incapacidade muito elevados". Em entrevista ao “Jornal de Notícias”, a investigadora alerta para a urgência de uma política que incentive a autonomia e a manutenção das pessoas no domicílio.

 

Apesar desta realidade, vivida pela maioria da população, há quem possa pagar ajuda privada para ficar na sua casa. O envelhecimento dos mais favorecidos nada tem que ver com situações que possam pôr em perigo a sua sobrevivência: não existe fome nem falta de cuidados médicos e de higiene.

 

Aliás, nos últimos anos, tem emergido no país um novo mercado de lares de luxo, nos quais, por uma mensalidade a rondar os três mil euros, se pode desfrutar de uma vista para o mar, um jardim de Inverno e uma piscina aquecida. No lado oposto da vida, uma senhora de Barcelos, com setenta e muitos anos de idade, contava esta semana à TVI que vivia há sete anos dentro de um contentor, sem água, luz ou casa de banho, subsistindo graças à ajuda da segurança social. O fosso entre estas duas realidades coloca-nos não só na cauda da Europa, mas também na lista de países dignos do rótulo de terceiro mundo, nos quais o modo como se vive e como se envelhece está condicionado pelo tamanho da bolsa de cada um...

 

Paula Pedro Martins
jornalista

Partilhar:
Classificações: 5Média: 4.6
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.