Em coma, mas consciente, durante 23 anos
09 dezembro 2009
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Um estranho caso de um homem que esteve em coma 23 anos, mas que diz ter estado consciente, saltou para a imprensa mundial. Rom Houben sofreu do que alguns especialistas apelidam de síndrome de prisão: durante o coma ouviu a mãe comunicar-lhe a morte do pai e os médicos a falarem da sua situação como um caso perdido, sem conseguir expressar qualquer emoção. Recuperou, entretanto, algumas faculdades, graças a um especialista belga. Mas o caso tem gerado desconfiança no meio clínico.

 

“Nunca esquecerei o dia em que me ‘descobriram’. Foi o meu segundo nascimento”. Foi deste modo que o belga Rom Houben, hoje com 43 anos, descreveu à revista alemã “Der Spiegel” o momento em que, finalmente, um médico constatou que ele não se encontrava em estado vegetativo persistente e que, embora não conseguisse comunicar, ouvia e entendia tudo o que lhe era dito.
 

Tudo aconteceu há três anos quando o neurologista Steven Laureys, da Universidade de Liège, decidiu experimentar uma nova abordagem aos doentes em coma.

 

Citado pela revista alemã, que trouxe o caso a público, o especialista explicou que o uso de um inovador sistema de monitorização da actividade cerebral, através de ressonância magnética, lhe permitiu percebeu que o caso de Rom era um falso coma e que este vivia aprisionado dentro de si mesmo.

 

Rom Houben era um jovem universitário, estudante na área de engenharia, e amante de artes marciais quando, em 1983, sofreu um grave acidente de viação que, aparentemente, lhe tirou a consciência e o deixou tetraplégico.

 

Em estado vegetativo persistente durante anos a fio, Rom Houbon conta ter ouvido a mãe a participar-lhe a morte do pai e os médicos a falarem sobre o seu estado de saúde. Ouvia, mas não conseguia comunicar de nenhuma maneira. Sentia-se “impotente, extremamente impotente. Inicialmente fiquei revoltado, mas depois aprendi a viver com isso”.

 

A estória é, deveras, arrepiante e evoca em nós o terror dos nossos piores pesadelos, muito ao estilo do grande mestre Hitchcock e dos seus magníficos filmes de suspense.

 

Por isso, não é de estranhar, ou talvez seja, que Rom tenha a intenção de escrever a sua experiência em livro, como avançou o próprio ao jornal “The Guardian”.

 

Referem as muitas entrevistas que Rom tem concedido que ele comunica em quatro línguas através de um ecrã táctil, acoplado à sua cadeira de rodas. Que consegue, actualmente, esta enorme proeza porque foi submetido a intensas sessões de fisioterapia, tendo até conseguido recuperar algum movimento.

 

A experiência médica e vários estudos na área indicam, no entanto, que quanto maior é o período em que o paciente se encontra em estado vegetativo menores são as hipóteses de recuperação.

 

O neurologista Steven Laureys, que tratou Rom e que lidera o grupo científico que estuda os estados de coma no hospital universitário de Liège, acredita que o caso de Rom é apenas um entre muitos e alerta para o facto de os doentes em coma serem mal diagnosticados com uma “assustadora regularidade”.

 

De acordo com o “The Guardian”, o neurologista indicou ainda que todos os doentes classificados como estando num estado de coma não-reversível, deverão ser “testados dez vezes” e que os comas, tal como o sono, têm diferentes fases que precisam de ser monitorizadas.

 

Vários especialistas consideram este caso, no mínimo, estranho e suspeitam da capacidade real de comunicação de Houben, afirmando que as suas respostas parecem artificiais para alguém com danos tão profundos e que passou décadas sem poder comunicar.

 

Depois de ter visionado o vídeo, no qual a mão de Houben é movida por uma terapeuta através do teclado, Arthur Caplan, professor de bioética da Universidade da Pensilvânia refere trata-se de “comunicação induzida".

 

“Normalmente quem 'ajuda' é quem está também compor a mensagem, não a pessoa que supostamente está a ser ajudada", diz o especialista, acrescentando que este tipo de situação já foi desacreditado diversas vezes.

 

Mas a equipa médica que acompanhou o paciente refuta as descrenças e reforça o facto de as melhoras de Rom serem o resultado de ele ter sido, finalmente, diagnosticado e ter iniciado a terapia.

 

O centro de Liège é muito procurado por pacientes e seus familiares que pretendem uma segunda opinião, baseada nos avançados testes que utilizam, incluindo os de ressonância magnética.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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