É fácil ficar viciado em fast food
05 abril 2010
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Sabia que, se comprar um menu da McDonald’s hoje e o conservar num local seco, ele vai ter o mesmo aspecto passado um ano? E sabia que o fast food é tão viciante quanto a cocaína ou a heroína?

 

Na localidade de Denver, nos EUA, uma avó comprou um menu da McDonald’s, vendido com o nome de “Happy Meal”, e deixou-o totalmente descoberto numa prateleira ao ar para ver o que acontecia. Passado um ano, Joann Bruso, que também é nutricionista e que tem um blogue onde dá conselhos sobre alimentação saudável, comprou um novo menu e fotografou-o lado a lado com o antigo. O resultado é impressionante: os dois menus parecem iguais (Link: ver reportagem do “Dailymail”).

 

Era de esperar que, passados 12 meses, o pão com o hambúrguer ficasse com um aspecto putrefacto e as batatas fritas escuras e bolorentas, mas isso não aconteceu: as batatas continuam douradas e o pão mirrou um pouco mas não ficou com mau aspecto.

 

Joann Bruso admitiu que o clima seco da sua casa nas montanhas talvez possa ter contribuído para a preservação dos alimentos, dado que a humidade, que na região tem um índice muito baixo, acelera a decomposição. De qualquer modo, segundo explicou a nutricionista ao “Dailymail”, “espera-se que a comida se decomponha e fique malcheirosa depois de algum tempo e o facto de ela não se ter decomposto mostra como pode ser nociva”, dado o número elevado de conservantes que contém.

 

Uma curiosidade contada por Joann foi a de ter verificado, durante a sua experiência, que as moscas e outros insectos ignoraram por completo o menu deixado ao ar.

 

Os resultados desta experiência caseira, só por si, já nos devem deixar bastante reticentes em levar à boca um destes hambúrgueres na próxima visita que fizermos a um centro comercial, onde proliferam vários restaurantes de fast food. Mas, para ficarmos ainda mais elucidados sobre os malefícios deste tipo de comida, um estudo publicado na semana passada na revista “Nature Neuroscience” refere que a comida hipercalórica pode ser tão viciante como as drogas ou o tabaco, dado que desperta os mesmos sistemas cerebrais de recompensa que são activados, por exemplo, na dependência da cocaína, heroína e nicotina.

 

Neste estudo, liderado por Paul Kenny, do Instituto de Investigação Scripps, na Califórnia, EUA, foi analisado o comportamento de ratinhos alimentados com comidas hipercalóricas (bacon, salsichas e bolos) durante três anos para verificar o que acontecia nos seus cérebros.

 

"No estudo, os animais perderam completamente o controlo sobre os seus hábitos de alimentação, o primeiro sinal de vício. Eles continuaram a comer de mais mesmo quando sabiam que iriam receber choques eléctricos, mostrando o quão estimulados estavam para consumir a comida", explicou o investigador.

 

Outro sinal inquietante do poder de viciação da comida hipercalórica foi o facto de, quando lhes foi interrompida a dieta hipercalórica e lhes foi apresentado um menu saudável, os animais se terem negado a comer quase por completo, tendo feito uma espécie de greve de fome durante duas semanas.

 

Em Novembro do ano passado, um estudo publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) contava uma experiência realizada com ratinhos que foram submetidos a uma dieta normal durante 5 dias. Passado esse período, a sua alimentação foi alterada, tendo passado a comer alimentos ricos em açúcar. Quando o menu foi novamente mudado, regressando à dieta original, os animais mostraram sinais de abstinência idênticos aos provocados pelo álcool ou droga.

 

Neste estudo recente, os cientistas quiseram perceber, ao certo, que mecanismos moleculares estavam implicados no vício da comida. Centraram a sua atenção no receptor D2, um neurotransmissor que responde à dopamina, e que está relacionado com a percepção de prazer. Analisaram então o comportamento dos roedores face a drogas e a comida hipercalórica.

 

Tal como com as drogas, a comida hipercalórica “inunda” o cérebro com dopamina, aumentando a sensação de prazer, mas, à medida que os ratinhos iam comendo cada vez mais, o cérebro ia respondendo cada vez menos aos estímulos, criando-se um ciclo vicioso que conduz à dependência.

 

Aplicando os dados do estudo aos humanos, conseguimos entender a razão pela qual muitos obesos não conseguem emagrecer, apesar das inúmeras tentativas. Os dados desta investigação também nos dão motivos para pensar que é bastante fácil ficar viciado em comida gordurosa e que, por isso, o melhor é mesmo evitar consumir alimentos desse tipo com regularidade.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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