Dinheiro não gera felicidade
27 novembro 2009
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“O dinheiro não traz felicidade…mas ajuda” é uma das frases que costumamos ouvir em conversas de café. Na verdade, a frase não é completamente insensata, dado que vivemos numa sociedade de consumo na qual, aparentemente, tudo pode ser comprado, até mesmo a felicidade.

 

Mas um estudo publicado esta semana na revista “Health Economics, Policy and Law” vem questionar esta afirmação ao referir que a psicoterapia, ou o acompanhamento psicológico, pode trazer uma felicidade 32 vezes superior à proporcionada, por exemplo, por um aumento de ordenado considerável ou até mesmo por prémios chorudos ganhos na lotaria.

 

A máxima que refere que o "dinheiro não traz felicidade" é parcialmente utópica na sociedade em que vivemos. Que bem-estar terão aqueles que não têm dinheiro para fazer face às necessidades básicas, como a comida, um tecto ou cuidados de saúde? Mas, na verdade, a frase já fará sentido quando aquilo que se ambiciona é ter dinheiro para comprar um carro classe A, uma casa com piscina num bairro chique, uma viagem às Antilhas ou roupa e acessórios de marca.

 

Hoje em dia, ter dinheiro para comprar coisas supérfluas, mas que dão estatuto e conforto afectivo, parece ser tão imprescindível como ter dinheiro para satisfazer as necessidades primárias da vida. Este novo estudo, intitulado “Money or Mental Health: The Cost of Alleviating Psychological Distress with Monetary Compensation versus Psychological Therapy”, vem ajudar a reforçar aquilo que muitos de nós já sabemos: apesar de o dinheiro ser um meio para manter a qualidade de vida, ele não é fundamental para atingir a felicidade, dado que esta se conquista com o autoconhecimento.

 

Para o estudo, Chris Boyce, da University of Warwick, e Alex Wood, da University of Manchester, analisaram os resultados de um questionário sobre bem-estar feito a mil pessoas. Depois, compararam as alterações no bem-estar das pessoas provocadas pela terapia psicológica e por aumentos súbitos dos rendimentos.

 

Verificaram que um plano de terapia psicológica de 4 meses tinha um grande efeito sobre o bem-estar das pessoas, de tal forma que quem tinha tido acompanhamento psicológico se encontrava 32 vezes mais feliz do que os que receberam quantias avultadas de dinheiro.

 

De seguida, os investigadores fizeram as contas para aferir que quantidade de dinheiro seria necessária para atingir o mesmo nível de felicidade gerado pela psicoterapia. Partindo de um plano de terapia psicológica no valor de 800 libras, os investigadores verificaram que seria necessário que uma pessoa recebesse um aumento salarial de 25 mil libras para igualar o bem-estar desencadeado pela psicoterapia.

 

Os investigadores referem que os países ditos desenvolvidos, apesar de a sua economia ter crescido de um modo exponencial ao longo dos últimos 50 anos, não têm aumentado os valores da Felicidade Interna Bruta (conceito criado nos anos 70 e que assenta em quatro pilares: promoção de um desenvolvimento socioeconómico sustentável e igualitário, preservação e promoção dos valores culturais, conservação da natureza e estabelecimento de uma boa governabilidade). Por outro lado, tem-se assistido a uma deterioração da saúde mental em todo o mundo.

 

No comunicado de imprensa publicado no sítio oficial da University of Warwick, os investigadores apelam aos decisores políticos para se preocuparem mais em aumentar o acesso e a disponibilidade aos cuidados de saúde mental e menos com o aumento do crescimento económico, dado que, apontam, mais dinheiro só traz um pequeno aumento na felicidade e é uma maneira ineficaz de aumentar o bem-estar da população.

 

Do mesmo modo, este trabalho também apresenta soluções para a subordinação de algumas instituições sociais a um modelo de funcionamento centrado no dinheiro. Por exemplo, actualmente nos tribunais a dor e o sofrimento dos indivíduos causados por outrem são compensados monetariamente.

 

A pesquisa sugere que esta é uma forma ineficaz de reparação dos danos psicológicos na sequência de acontecimentos traumáticos e que uma solução mais eficaz seria a oferta de terapia psicológica.

 

Para o investigador Chris Boyce, “a terapia psicológica pode ser muito mais rentável do que a compensação financeira para aliviar a angústia e este facto não é só importante para as decisões judiciais, em que impera o modelo de compensação da dor e do sofrimento através de enormes prémios financeiros, mas têm também amplas implicações para a saúde pública e o bem-estar".

 

Em forma de alerta e lamentando a situação actual, Chris Boyce comenta que ”muitas vezes a importância do dinheiro para melhorar o nosso bem-estar e trazer maior felicidade é vastamente sobrevalorizada” pelos decisores políticos.

 

“Os benefícios de ter uma boa saúde mental, por outro lado, também não são devidamente apreciados, dado que as pessoas não se apercebem do efeito poderoso que a terapia psicológica pode ter na melhoria do nosso bem-estar."

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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