Desnutrição na gravidez afecta metabolismo da medicação do filho durante toda a vida
12 novembro 2010
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As consequências de uma alimentação desequilibrada na gravidez e na fase da amamentação podem ser nefastas para a saúde da mãe e do bebé. Aos danos já conhecidos, um estudo recente acrescentar mais um: o bebé que nasce com baixo peso, resultado de uma dieta pobre da mãe, pode ter uma reduzida capacidade de metabolizar a medicação, durante toda a vida.

 

O papel de uma alimentação equilibrada durante a gravidez e amamentação tem como finalidade promover o desenvolvimento do feto de um modo saudável. Vários estudos têm demonstrado que as dietas deficientes causam efeitos prejudiciais tanto na mãe quanto no feto. Se, por exemplo, um ganho de peso excessivo durante a gravidez pode contribuir para problemas hemorrágicos e diabetes gestacional, bem como para o aparecimento de pré-eclampsia – que podem colocar em risco a vida de ambos - por outro lado, uma alimentação deficitária na gravidez pode provocar um deficit de peso do bebé ao nascer e possíveis dificuldades no desenvolvimento neuromotor e visual da criança.

 

Neste estudo recente da Oregon State University que será apresentado na próxima semana na reunião anual da American Association of Pharmaceutical Scientists, em Nova Orleães, EUA, os cientistas concluíram que uma alimentação deficiente durante a gravidez e na fase da amamentação pode causar problemas na metabolização dos medicamentos dos bebés e esse facto pode, inclusive, prologar-se pela idade adulta.

 

Neste estudo, liderado por Ganesh Cherala, professor adjunto da Oregon State University, os cientistas analisaram, em laboratório, rins de animais que nasceram de mães alimentadas com dietas de baixa proteína durante a gravidez e na lactação. Verificaram que os rins desses animais tinham muito menos capacidade no metabolismo e transporte dos fármacos do que os animais cujas mães se tinham alimentado com doses adequadas de proteína. Esta constatação sugere que o peso ao nascer pode prejudicar a capacidade do organismo para metabolizar os fármacos, comprometendo a sua eficácia.

 

Em comunicado de imprensa, o autor do estudo explicou que a culpa desta situação parece ser de uma proteína que tem a função de transportar os fármacos. "Esses transportadores, que ficam na membrana celular, transportam as moléculas dos fármacos do sangue para dentro da célula (…) Depois, um segundo conjunto de transportadores transporta-o desde a célula para a urina", explicou o cientista.

 

Nos animais com baixo peso ao nascer, os transportadores analisados pelo cientista - denominados OAT1 (Organic Anion Transporter) e Pgp (P-glicoproteína) - foram entre duas a 50 vezes menos prevalentes do que nos animais que nasceram com peso normal. A diferença foi semelhante em ambos os sexos, embora as fêmeas tivessem apresentado um maior deficit ao longo do tempo.

 

Em termos práticos, isto significa que, se os rins têm menos transportadores, menos medicação é expelida pela urina, o que conduz a resultados altamente prejudiciais, que, segundo explicou o líder da investigação, podem variar desde a acumulação tóxica de drogas no sangue até a inadequados benefícios terapêuticos da medicação.

 

Ganesh Cherala apontou várias ironias nesta constatação científica. Primeiro, porque os cientistas sabem que ter baixo peso ao nascer aumenta os riscos de diabetes em seres humanos, bem como doenças cardiovasculares e síndrome metabólica (níveis elevados de colesterol, açúcar no sangue e pressão arterial). Assim, comparadas com as pessoas que nascem com um peso normal, os indivíduos que nasceram com baixo peso são mais propensos a precisar de medicação durante a vida. No entanto, essas mesmas pessoas podem ser menos capazes de processar a medicação que necessitam.

 

Em segundo lugar, várias investigações realizadas em seres humanos têm encontrado uma ligação entre o baixo peso ao nascer e um maior risco de obesidade na idade adulta. Normalmente, os pacientes obesos costumam precisar de doses mais elevadas de medicação do que os pacientes não obesos. Mas, se a obesidade do paciente for consequência do baixo peso ao nascer, uma dose maior pode significar que o organismo não conseguirá metabolizar a medicação.

 

Os resultados do estudo sugerem que, no futuro, quando um médico prescrever os medicamentos, que podem variar de um simples analgésico a medicações quimioterápicas, o factor do peso ao nascer possa ser considerado, em conjunto com os outros factores – tais como o peso actual, idade, altura e género – para a aplicação da dosagem adequada do fármaco.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

 

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