Descoberta razão pela qual a música provoca prazer
21 janeiro 2011
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As pessoas apaixonam-se pela música para a mesma razão que são atraídas para o sexo, drogas, jogo ou comida saborosa, de acordo com estudo publicado na revista científica “Nature Neuroscience”.

 

A dopamina, um neurotransmissor presente no cérebro, tem um papel determinante no sexo, na alimentação e nas dependências. O que não se sabia, no entanto, era como esta substância poderia estar envolvida no prazer abstracto, como ouvir música. Este novo estudo do Instituto Neurológico de Montreal e do Hospital Neuro na Universidade McGill, no Canadá, ajuda a explicar porque a música tem ocupado uma parte importante no desenvolvimento das sociedades humanas ao longo da história, além de, no futuro, poder ajudar os cientistas a entender melhor os mistérios do prazer humano.

 

Para o estudo, os cientistas avaliaram a libertação da dopamina através das mudanças que ocorrem no corpo. Os arrepios na pele - marcador bem estabelecido das respostas emocionais à música - foram analisados, assim como a frequência cardíaca, a respiração e a temperatura. "Essas descobertas neuroquímicas provam que as respostas emocionais intensas à música envolvem circuitos de recompensa antigos do cérebro", considerou, em comunicado da Universidade McGill, Robert Zatorre, neurocientista membro da equipa de investigadores.

 

Dizem os cientistas que, com esta investigação demonstrou-se, pela primeira vez, uma relação entre recompensas abstractas, tais como a música, e libertação de dopamina. O que até aqui se sabia é que esta mesma relação existia com o prazer resultante do sexo, da ingestão de comida ou da utilização de drogas recreativas.

 

Valorie Salimpoor, líder da equipa de investigadores, explicou ao sítio Discovery, o que se passa quando ouvimos uma música que nos provoca emoções: “Se você ouve estas melodias e antecipa o que vai acontecer em seguida (porque já conhece a música e sabe a parte que mais o emociona), quando passa o trecho musical vai confirmar a sua expectativa ou surpreendê-lo; todas estas pequenas nuances cognitivas provoca-lhe este prazer incrível". Este “reforço ou recompensa acontece, quase totalmente, por causa da dopamina." E, segundo reforça, “este facto explica basicamente porque a música tem estado presente ao longo da história humana (…) Todo o prazer intenso que obtemos, na verdade, é resultado de um reforço biológico que acontece no cérebro, e agora temos a prova disso."

 

Para o estudo, os investigadores recrutaram oito pessoas consideradas “amantes de música”, que foram instigadas a trazer para o laboratório músicas que lhes provocassem arrepios de prazer. A maioria das músicas escolhidas era peças clássicas, mas também jazz, rock e pop, incluindo Led Zeppelin e Dave Matthews Band.

 

Após 15 minutos a ouvirem as músicas, os cientistas injectaram nos participantes uma substância radioactiva que se liga aos receptores de dopamina. Com um aparelho, denominado scanner PET, os cientistas foram capazes de ver se a dopamina circulava no sangue dos voluntários, o que indicaria a presença da libertação de uma grande quantidade de dopamina, e se a substância ocupava todos os receptores cerebrais disponíveis. A técnica mostrou, definitivamente, pela primeira vez, que o cérebro das pessoas liberta grandes quantidades de dopamina quando estas sentem a música que os emociona.

 

Dado que os cientistas tinham a certeza que a dopamina estava relacionada com o prazer de ouvir música, submeteram os participantes a testes de Ressonância Magnética Funcional, enquanto ouviam as músicas preferidas. Nesta parte da experiência, os exames mostraram que o cérebro liberta dopamina, tanto na fase de antecipação musical, como no preciso momento em que são inundados por arrepios, altura, na qual, a libertação da substância é mais intensa. Nestas duas fases, a dopamina atinge áreas diferentes do cérebro.

 

A utilidade destes resultados prendem-se, segundo adiantam os cientistas, com as possibilidades de usar a música para perceber melhor a relação entre a dopamina e os sentimentos de recompensa, motivação e prazer. "A música é única, no sentido em que podemos medir todas as fases de recompensa em tempo real, ela move-se do neutro na linha de base até ao pico do prazer", explica ainda Valorie Salimpoor. "Geralmente, é um grande desafio examinar a actividade da dopamina durante as duas antecipações e na fase de consumo de uma recompensa".

 

Contrariando todas as ligações entre a dopamina e vícios perniciosos, a música afecta, do mesmo modo, os circuitos de recompensa do cérebro levando a uma onda de prazer, puramente saudável. E não é, contudo, a única experiência cultural a provocar-nos bem-estar e satisfação, já que estudos recentes têm vindo a demonstrar, por exemplo, uma ligação entre a sensação de prazer e a visualização de obras de arte.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

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