Confusão linguística entre cloro e cólera cria ira em Moçambique
02 abril 2009
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Em Moçambique, várias pessoas foram mortas e muitas outras ficaram feridas em consequência da fúria dos populares que confundem cloro com cólera, acusando os voluntários da Cruz Vermelha de estarem a distribuir a doença para matar a população.

 

Em declarações emotivas, Gregório Passarinho, um dos 20 voluntários da Cruz Vermelha atacados pelos populares, explicou ao jornalista da agência Lusa, Fernando Peixoto, como tudo aconteceu durante as 18 horas em que ficou refém dentro de uma casa que acabou por ser incendiada pelos populares.

 

"Quando saímos para sensibilizar (a população para os perigos da cólera), fui amarrado, como líder comunitário da área, dizendo que eu recebia a cólera e distribuía aos voluntários para matar a população. Disseram que eu ia morrer. Amarraram-me um dia e depois libertaram-me. Fui ao posto receber tratamento, mas os enfermeiros não estavam, também tinham sido ameaçados", recorda, por vezes quase chorando, outras aos gritos, com raiva na voz.

 

Gregório Passarinho conseguiu escapar ileso às chamas, mas a mesma sorte não tiveram muitos outros voluntários, bem como agentes de saúde e polícias locais. Os ataques terão começado na última semana de Fevereiro, quando, de acordo com uma notícia veiculada por Eleutério Fenita, correspondente da BBC em Maputo, duas pessoas foram mortas e oito ficaram feridas em Kinga, região a norte de Nampula. Segundo Santos Inácio, vice-presidente regional da Cruz Vermelha, 13 pessoas desapareceram nessa altura.

 

De acordo com a agência Lusa, ainda na última semana de Fevereiro, no distrito de Montepuez, província de Cabo Delgado, também no norte de Moçambique, um agente de saúde do Centro de Tratamento da Cólera naquele distrito foi também agredido até à morte, acusado de espalhar a doença no local. Na altura, outros agentes de saúde ficaram feridos, depois de terem sido espancados pela população, e várias propriedades foram destruídas.

 

O voluntário Gregório Passarinho explicou à Lusa que os habitantes pensam que os voluntários espalham a cólera a troco de bicicletas, dado ser este o meio de transporte dos membros da organização recrutados pela Cruz Vermelha.

 

Toda esta situação é agravada pelo facto de muitos dos voluntários serem recrutados dentro da população local, pelo que, para se salvarem da fúria dos vizinhos, são obrigados a abandonar a família e a fugir para parte incerta.

 

Este fenómeno difícil de entender, mesmo nos lugares remotos da “aldeia global”, é explicado pelas autoridades locais como uma confusão linguística. A mesma explicação é corroborada pelo jornalista e linguista Francisco Carmona. "Os equívocos quanto ao cloro têm a ver com as dificuldades que os falantes das línguas nativas do norte de Moçambique sentem para pronunciar a palavra clo, acabando por pronunciar e perceber colo, muito próximo de cole", explicou à Lusa o especialista.

 

A possibilidade de a revolta da população estar ligada à confusão entre as palavras cloro e cólera também já tinha sido discutida pelo sociólogo Carlos Serra, quando, entre Dezembro de 2001 e Janeiro de 2002, populares atacaram funcionários do Estado, chefes tradicionais e trabalhadores da Organização Não Governamental (ONG) alemã SNV, com a acusação de estarem a espalhar a cólera, através do cloro, na província de Nampula. Na sequência das escaramuças, uma pessoa foi mortalmente baleada pela polícia e várias casas foram queimadas.

 

"Há quem, na altura, defendesse que o problema tinha a ver com a irracionalidade das pessoas. Havia quem pensasse que o problema estava na falsa relação que o povo estabelecia entre o cloro e a cólera: distribuir cloro, era distribuir cólera", referiu à mesma agência noticiosa Carlos Serra.

 

É verdade que a cultura local está envolta em misticismos difíceis de contornar, como o episódio que também aconteceu em Fevereiro, quando três pessoas foram mortas por serem consideradas “feiticeiras”, dado que a população acredita serem estas as responsáveis pela seca prolongada.

 

Contudo, sete anos após o relato dos ataques aos voluntários da ONG alemã, tudo se mantém na mesma a norte de Moçambique e os habitantes continuam a matar quem os ajuda, por confundirem cloro com cólera.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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