Condução agressiva: associar o carro com a sua identidade
28 outubro 2011
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Enfrentar as longas filas de trânsito, que compõem o cenário diário das grandes cidades, é altamente desgastante. E o panorama agrava-se se pensarmos que diariamente milhões de pessoas em todo o mundo passam horas dentro de um carro antes de chegarem e depois de saírem do trabalho, rodeadas de ruído, poluição e muita impaciência… Mas por que razão serão alguns automobilistas propensos a agir de forma intempestiva e violenta enquanto outros enfrentam a estrada de forma tranquila?

 

O termo “raiva na estrada” (road rage) teve início durante a década de 1980 nos EUA, quando os jornalistas de uma televisão local de Los Angeles, usaram o nome para descrever episódios ocorridos nas auto-estradas perto da cidade. Entre 1987 e 1988, as circulares dessa grande cidade norte-americana foram marcadas por tiroteios entre automobilistas e motociclistas.

 

Desde aí, muito se tem escrito e falado, especialmente nos meios de comunicação norte-americanos, sobre os comportamentos violentos na estrada: desde os insultos, por palavras e gestos, condução de forma ameaçadora e provocatória, até às lutas entre automobilistas, assaltos e colisões. Mas se é um facto que as viagens diárias para o trabalho podem ter um enorme efeito negativo sobre o bem-estar e fazer disparar o stress muito antes de se chegar ao destino, por que razão são alguns automobilistas mais agressivos que outros?

 

Um novo estudo, realizado pela Universidade Temple Fox School of Business, nos EUA, concluiu que as pessoas que vêem (percepcionam) o carro como uma extensão de si têm fortes tendências a conduzirem de forma agressiva.

 

Publicado na edição online no “Journal of Psychology & Marketing”, o estudo denominado "Condução Agressiva: Uma experiência de consumo" (Aggressive Driving: A Consumption Experience), é o primeiro a analisar, de forma abrangente, como a atitude, a personalidade e os valores contribuem para comportamentos agressivos na condução.

 

A condução agressiva causa um terço de todos os acidentes que envolvem lesões corporais e dois terços de todos os acidentes fatais nos EUA, de acordo com o estudo. "Os resultados do estudo explicam boa parte desse fenómeno que já se sabia existir", disse, em comunicado de imprensa, a líder da investigação, Ayalla Ruvio, professora-assistente de marketing. E exemplifica: "sabemos que os homens, mais do que as mulheres, tendem a ser condutores mais agressivos e tendem a ver os seus carros como uma extensão de si."

 

O estudo assenta numa perspectiva de comportamento do consumidor deste fenómeno e apresenta dois estudos realizados em Israel. Um deles foi efectuado sob uma visão holística sobre a influência da personalidade, atitudes e valores, através de dados recolhidos de 134 pesquisas realizadas junto de homens e mulheres com uma média etária de 23 anos e meio. O segundo estudo, realizado com 298 pessoas, foi desenvolvido a partir do primeiro, mas acrescentou os factores de atracção de risco, impulsividade e condução como actividade hedonista e percepção sobre as pressões de tempo.

 

Da análise, os investigadores concluíram que “as pessoas que vêem o seu carro como um reflexo da sua auto-identidade são mais propensas a ter comportamentos agressivos na estrada e a desrespeitarem as leis”. Do mesmo modo, refere o estudo, as pessoas com tendências compulsivas são mais propensas a conduzir de maneira mais agressiva, com desrespeito (pelos os outros) e com eventuais consequências nefastas.

 

Os investigadores também verificaram que “o materialismo estava relacionado ao aumento da agressividade nas tendências de condução”. Segundo as conclusões do estudo, “os jovens nas fases iniciais da formação da sua auto-identidade podem sentir a necessidade de mostrar as suas habilidades de condução mais do que outros, podendo ser confiantes demais e subestimarem os riscos envolvidos numa condução imprudente”.

 

No trabalho, os autores verificaram ainda que “aqueles que admitiam uma condução agressiva também admitiram envolver-se em incidentes de violação da lei” e que “a sensação de estar sob pressão do tempo levava a uma condução mais agressiva”.

 

Para os autores, as implicações deste estudo podem ser vistas em vários contextos culturais devido à forte ligação entre os carros e a identidade. Os resultados do estudo "sugerem que a percepção do veículo como uma extensão do eu leva a um comportamento mais agressivo na estrada ao invés de aumentar a prudência ", escreveram os autores, explicando que talvez "os indivíduos possam ver os seus carros - e o espaço que estes ocupam na estrada - como o seu território e procurem manter o controlo sobre as viaturas e defendê-las quando necessário."

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

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