Como o tabaco influi na infertilidade feminina e masculina
17 setembro 2010
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Além de provocar inúmeras doenças e envelhecimento precoce, o consumo de tabaco também influi negativamente na reprodução e na saúde do futuro bebé. Vários estudos já confirmaram cientificamente as implicações na saúde reprodutiva da mulher, mas poucos trabalhos têm investigado o mecanismo molecular relacionado com a infertilidade masculina.

 

Dois estudos publicados recentemente na revista “Human Reproduction” alertam para o facto de o tabagismo poder tanto danificar a qualidade do esperma dos fumadores que pretendem ser pais, como prejudicar a saúde reprodutiva dos filhos de mulheres que fumaram durante a gravidez.

 

Num dos estudos, liderado por Claus Yding Andersen, professor de Fisiologia Reprodutiva no Hospital Universitário de Copenhaga, Dinamarca, foi verificado que o consumo de tabaco pela mulher, durante o início da gravidez, reduz drasticamente o número de células germinativas (células que dão origem aos espermatozóides e aos ovócitos) e de células somáticas (células que dão origem a todas as outras partes do corpo) do feto em desenvolvimento, podendo causar efeitos nefastos na fertilidade do bebé na vida adulta. Ao analisarem tecido de 24 embriões, provenientes de uma clínica de interrupção de gravidez, que tinham entre 37 e 68 dias, os cientistas verificaram que os embriões de mulheres fumadoras apresentavam níveis de células germinativas e de células somáticas 55% e 37% mais baixos, respectivamente. De acordo com os investigadores, a diminuição dos níveis parece ser maior quanto mais a mãe fuma.

 

Com base nestes resultados iniciais do crescimento fetal, a equipa de Anderson concluiu que o impacto do tabagismo na produção celular pode significar um risco mais elevado na fertilidade futura dos filhos.  "Estes resultados fornecem dados para os profissionais de saúde falarem com as mulheres que estão a pensar engravidar, ou que tenham concebido recentemente, apresentando-lhes um argumento irrefutável para as convencer a parar de fumar", reforçou o cientista, adiantando que "o efeito negativo do fumo parece ser incontestável, desde a concepção e durante os primeiros dias de gestação, quando o embrião humano se diferencia em menina ou menino".

 

E a fertilidade masculina?


Apesar deste novo estudo ter constatado a relação entre o consumo de tabaco pela mãe e possíveis consequências na saúde reprodutiva do bebé, e embora se soubesse que o tabagismo paterno também teria uma influência negativa neste capítulo, até ao momento pouco se conhece sobre o modo como o tabaco actua nos indivíduos do sexo masculino.

 

Num segundo estudo, também publicado na “Human Reproduction”, os cientistas liderados por Mohamed E. Hammadeh, chefe do laboratório de reprodução assistida do departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Saarland, Alemanha, estudaram a influência do tabaco no esperma, ao analisarem uma proteína específica denominada protamina (que actua no desenvolvimento dos cromossomas). As amostras foram recolhidas após uma abstinência sexual de três a quatro dias.

 

Ao analisarem as concentrações de dois tipos de protaminas (P1 e P2) no esperma de 53 grandes fumadores, que consumiam mais de 20 cigarros por dia, e 63 homens não-fumadores, os investigadores verificaram, então, que as concentrações de P2 eram 14% mais baixas nos fumadores do que nos não fumadores. “Em homens normais, férteis, a proporção entre P1 e P2 é praticamente a mesma. Qualquer aumento ou diminuição nessa divisão representa algum grau de infertilidade”, explicou em comunicado de imprensa o líder da investigação, Mohamed Hammadeh.

 

De acordo com as citações do investigador, a verdade é que as anteriores tentativas realizadas pelos cientistas para esclarecer a relação entre o tabagismo e a infertilidade masculina esbarraram na incapacidade de identificar um mecanismo molecular subjacente a essa relação. Por isso, o resultado deste estudo traz novos e importantes dados que devem ajudar os homens fumadores que querem ser pais a abandonarem o vício, especialmente aqueles que, pela impossibilidade de conceberem naturalmente, vão iniciar a reprodução medicamente assistida.

 

Paula Pedro Martins

jornalista

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