Clínica oferecia escolha de características físicas dos bebés
06 março 2009
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Em determinadas circunstâncias, em muitos casos para evitar doenças, é aceitável e até desejável que certas características genéticas de um embrião sejam escolhidas. Mas será que é ético que um procedimento clínico semelhante seja praticado por razões fúteis, como para se ter um filho com olhos azuis e cabelo loiro?

 

A questão tem vindo a ser debatida pela imprensa internacional desde que, em Dezembro do ano passado, a clínica de fertilização norte-americana “Fertility Institutes”, com sedes em Nova Iorque, Los Angeles e Guadalajara (México), anunciou ter como objectivo oferecer aos pais a possibilidade de escolherem não só o género do seu bebé mas também a sua cor de olhos e de cabelo.

 

No início de Dezembro, o sítio da clínica “Fertility Institutes”, dirigida por um dos pioneiros, na década de 70, dos tratamentos de fertilização artificial, Jeff Steinberg, anunciava que tudo estaria previsto para que em 2010 ocorresse o nascimento do primeiro bebé livre de doenças e com características escolhidas pelos pais.

 

O processo que permite a selecção de embriões baseia-se no diagnóstico genético pré-implantacional (DPI), que consiste no estudo e selecção do material genético de um embrião antes da transferência para a cavidade uterina. O DPI aumenta o sucesso da fertilização “in vitro”, dado que um embrião “saudável” apresenta maiores probabilidades de se implantar no útero, mas também se apresenta livre de doenças hereditárias monogénicas, tais como a fibrose quística, a síndrome de Marfan ou a hemofilia A.

 

A intenção da clínica “Fertility Institutes” de responder aos desejos dos pais na escolha de características estéticas dos seus filhos criou mal-estar na comunidade médica mundial, tendo sida catalogada por muitos especialistas como uma possibilidade de criar “crianças à la carte”.

 

Em entrevista à BBC, Gillian Lockwood, especialista britânica em fertilidade e membro do comité ético do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, questionou se é moralmente correcto usar a ciência para estes fins. "Se chegarmos ao ponto de decidirmos que gene ou que combinação de genes são responsáveis pelos olhos azuis ou cabelo loiro, o que se faz com todos os outros embriões que são ruivos ou olhos verdes?"

 

A investigadora reforça ainda o alerta para o facto desta possibilidade poder "transformar bebés em produtos que as pessoas escolhem numa prateleira" de supermercado.

 

Por seu turno, em entrevista sobre o mesmo assunto ao jornal “Diário de Notícias”, o geneticista Mário de Sousa, especialista do Instituto de Ciências Médicas Abel Salazar, no Porto, diz não o incomodar a possibilidade de os pais poderem evitar doenças e, ao mesmo tempo, seleccionar as características físicas dos filhos.

 

"Esses embriões já são um paciente, portanto, não me choca a selecção de algumas características físicas. Mas oponho-me a que a selecção seja feita apenas por motivos cosméticos."

 

Depois de quase três meses de polémica, a “Fertility Institutes”, num breve comunicado publicado na sua página de internet, cancelou o programa, referindo que "qualquer benefício destes estudos de diagnóstico é claramente suplantado pelo impacto social aparentemente negativo por eles causado".

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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