Clima em mudança: Península Ibérica tem mais dias quentes
09 setembro 2010
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Diz a voz popular que os verões estão cada vez mais quentes. Um estudo da Universidade de Salamanca, em Espanha, veio agora acrescentar cientificidade a esta constatação popular. De facto, na Península Ibérica, o número de dias quentes está a aumentar a um ritmo superior ao registado no resto do mundo.

 

As mudanças climáticas são tema de debate tanto no mundo académico quanto nos média, como ainda nas conversas de café. Quando começam as vagas de calor ou os dias extremamente quentes, como o que tem acontecido este último Verão, esquecemo-nos do Inverno rigoroso que assolou a Europa e iniciamos de novo o debate sobre os efeitos do aquecimento global.

 

Mas será impossível não discutir o assunto, quando, por exemplo, em Zyryanka, Sibéria, os termómetros chegaram aos 37,4 graus celsius. Note-se que nesta região habitada mais fria do mundo, os termómetros nunca passavam dos 20 graus celsius.

 

Contudo, poucos são os estudos que se centram nos extremos climáticos e nas alterações que estão a ocorrer nas temperaturas máximas e mínimas ou nas variáveis dias quentes e noites frias. Até agora, o que os investigadores analisaram foram as alterações da temperatura média à escala global, notando uma tendência para o aumento da temperatura.

 

Dados de um relatório da NOAA, a agência atmosférica e oceânica dos EUA, sobre o estado do clima a nível global, recém-publicado no sítio da organização, revela que “cada uma das três últimas décadas foi bem mais quente que a anterior. Os anos 1980 foram, à época, os mais quentes de que se tinha registo. No decénio seguinte, todos os anos foram mais quentes que a média dos anos 80. Os anos 2000 são ainda mais quentes.” Estes dados tiveram por base a análise das temperaturas, bem como de outros indicativos de mudança climática, de 1850 a 2000.

 

Neste estudo, publicado na edição de Agosto da revista “Climatic Change”, investigadores da Universidade de Salamanca afirmam que, segundo o relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), existe à escala global uma tendência de diminuição de noites frias. No entanto, o crescimento de dias quentes na Península Ibérica é superior ao verificado globalmente em todo o planeta.

 

No decorrer da investigação, os cientistas examinaram os factores mais representativos destes extremos térmicos (dias quentes e noites frias) desde 1950 a 2006. Os resultados apontam para um aumento do número de dias de maior calor em relação ao registado no resto do planeta e uma redução no número de noites frias.

 

Este novo trabalho trouxe uma mais-valia à análise da situação, dado ter tornado possível observar as causas das variações climáticas de um ponto de vista físico, ao relacionarem o aumento de dias quentes com índices que representam a variação das características da atmosfera e dos oceanos.

 

Em comunicado de imprensa da própria universidade, Concépcion Rodríguez, autora principal do trabalho e investigadora do departamento de física geral e atmosfera da universidade espanhola, explicou que a variabilidade foi demonstrada dado que “os dias quentes estão relacionados com os padrões atmosféricos, enquanto as noites frias dependem da temperatura do mar (do Atlântico Norte)."

 

O tempo que traz a massa de ar desde o Norte de África é a principal causa do aumento de dias quentes. "O tipo de tempo que provoca mais noites frias é a depressão sobre o golfo de Génova, que transporta ar seco e frio do centro da Europa para Espanha", argumenta a investigadora, afirmando que a mudança no número de dias quentes e de noites frias é muito mais pronunciada no Sudoeste e Nordeste da Península Ibérica. "Uma das causas mais prováveis destas mudanças é a variação na temperatura da superfície do mar no Atlântico", ressalta.

 

Devido ao impacto dos extremos climáticos na agricultura e na saúde, estes dados científicos poderão agora servir de base para o desenvolvimento de estratégias. À imagem do que aconteceu em Portugal, entre Julho e Agosto, várias regiões espanholas foram também colocadas em alerta vermelho por vários dias consecutivos. Os especialistas sugerem que, como consequência, a taxa de mortalidade terá subido nestes meses, mas ainda não existem dados sobre o assunto.

 

Paula Pedro Martins

jornalista
 

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