Cientistas usam filhos como objecto de estudo
14 maio 2009
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Uma nova geração de investigadores norte-americanos está a usar os seus próprios filhos em pesquisas científicas. Mas alguns especialistas em bioética alertam para as consequências que esta prática pode ter, sobretudo na era do audiovisual.

 

Ao longo da história humana, o uso dos próprios filhos como objecto da investigação ou como cobaias foi uma prática comum. Estamos na década de 50 do século XX e Jonas Salk (1914-1995), médico e investigador norte-americano, diligentemente tentava descobrir uma vacina que criasse imunidade contra a poliomielite.

 

Na época, a poliomielite (que provocava sintomas semelhantes aos de uma gripe) constituía uma grave ameaça contra a saúde pública, infectando centenas de milhares de crianças e jovens e conduzindo, em muitos casos, à paralisia e à morte.

 

Depois de anos de pesquisa, Salk finalizou o soro injectável e recrutou os voluntários para o teste in vivo: a sua mulher e os seus filhos, ainda crianças. Todos receberam a vacina e começaram a produzir anticorpos contra a poliomielite. Estava descoberto um novo meio de protecção contra essa terrível doença.

 

Motivados pela falta de orçamento para angariarem outras pessoas e pelas vantagens de terem o objecto de estudo sempre por perto, ao longo da história, muitos cientistas têm utilizado como voluntários os seus familiares e amigos e, inclusive, têm-se utilizado a si próprios como objecto de análise.

 

O suíço Jean Piaget (1896-1980), pai da psicologia da inteligência, estudou incessantemente o crescimento dos seus três filhos, enquanto redigia os seus livros de psicologia da educação, considerados actualmente como verdadeiras bíblias. Mudam-se os tempos, mantêm-se os objectos de estudo, mas mudam-se os meios de análise.

 

No início deste ano, a imprensa norte-americana dedicou dezenas de páginas a esta questão. Embora nas muitas reportagens fossem citadas outras experiências que continuam a decorrer e em que o objecto de estudo são os próprios filhos dos cientistas, o que estava em causa, especificamente, era o caso do Dr. Déb Roy.

 

Déb Roy, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), instalou 11 câmaras de vídeo e 14 microfones em sua casa, com o objectivo de registar os primeiros três anos de vida do seu filho. Recolheu 250 mil horas de gravações e, com esse material, o cientista prossegue o estudo da linguagem e da aprendizagem da fala nos humanos.

 

Muitos especialistas, citados pela imprensa norte-americana, consideram válidos alguns dos projectos em que os cientistas usam os seus filhos, mas alertam para questões como a da privacidade, o impacto futuro nas crianças e os efeitos no seu relacionamento com os pais.

 

“No geral, o facto de os pais fazerem pesquisas com os próprios filhos não é boa ideia. As excepções seriam pesquisas que envolvessem um baixíssimo risco ou crianças maiores que aceitassem colaborar”, explicou à Reuters, Eric Kodish, especialista em bioética.

 

Sobre o caso específico do Dr. Déb Roy, Leigh Firn, médico e director do conselho de revisão do MIT Medical, disse que o projecto de pesquisa não despertou preocupação dado ser normal que os pais gravem imagens de vídeo dos seus filhos. Mas a escala da experiência gerou questões quanto à privacidade tanto da criança quanto das pessoas que visitam a casa do cientista.

 

Por isso mesmo, o conselho pediu uma avaliação por um consultor externo, o qual recomendou salvaguardas, como microfones e câmaras fáceis de desligar e entrega de informação aos visitantes.

 

O especialista recomendou ainda que a criança não fosse filmada, por exemplo, enquanto estivesse a aprender a usar o bacio, para evitar futuros constrangimentos.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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