Em 2005, havia na China mais 32 milhões de homens do que mulheres, de acordo com um estudo publicado este mês no “British Medical Journal” (BMJ).
Até à entrada do regime maoísta, em 1949, era imposto às mulheres, desde os primeiros anos de vida, enfaixarem os pés em ligaduras. O método conduzia a uma deformação permanente dos pés, dores excruciantes, grande dificuldade em caminhar e, muitas vezes, à invalidez precoce.
A prática tinha um preceito estético: acreditava-se que as mulheres ficariam mais bonitas com pés pequeninos. Contudo, esta regra tinha em si um objectivo castrador: ter os pés pequenos era uma maneira de lhes tolher a liberdade de movimento. A norma estava de tal forma arreigada na sociedade que poderia servir de justificação para a anulação de um casamento.
O regime liderado por Mao Tsé-Tung, que prevaleceu até 1979, tentou corrigir algumas das injustiças de que as mulheres eram vítimas. Foram proibidos os casamentos combinados e a mulher passou a poder pedir o divórcio.
Mas a política do filho único imposta pelo governo no início dos anos 80 veio aprofundar ainda mais as discriminações sexuais. É verdade que a política demográfica que foi instituída, dizem os especialistas, ajudou a conter a explosão da população do país, evitando mais de 400 milhões de nascimentos. Mas a que custo?
Um levantamento realizado por cientistas da Universidade de Zhejiang (China) e da University College de Londres revelou que no ano de 2005 nasceram 1,1 milhões de rapazes a mais do que raparigas.
Este levantamento teve como base dados de um minicenso de 2005: o estudo usou uma amostra de 4,764 milhões de pessoas com menos de 20 anos, apenas um por cento da população do país.
Dizem os cientistas que o desequilíbrio de nascimentos em termos de género é consequência dos abortos selectivos provocados pela imposição de as mulheres não terem mais do que um filho.
Aconselham, por isso, um reforço na repressão legal dos abortos selectivos e dos exames pré-natais para conhecer o sexo do bebé.
Mas estes factos são apenas a ponta do icebergue no que diz respeito aos atentados contra o sexo feminino, dado que, embora não existam dados oficiais, é sabido que ao longo das últimas décadas milhares de bebés do sexo feminino foram mortos à nascença ou abandonados em orfanatos.
A política do filho único impõe multas e cortes de benefícios às famílias transgressoras. Mas, nos últimos anos, tem vindo a ser flexibilizada, permitindo em algumas províncias o nascimento de um segundo filho quando o primeiro é menina. Em poucas regiões, é inclusive permitido o nascimento de um terceiro filho.
Os investigadores verificaram que apenas duas províncias (Tibete e Xinjiang, ambas com importantes minorias étnicas e com as normas mais permissivas em termos de natalidade) apresentavam uma média normal de nascimentos por género. Noutras províncias, como Jiangxi e Henan, a relação chegava a ser de 140 rapazes por 100 raparigas.
Para termos uma ideia, a média mundial situa-se entre 103 a 107 nascimentos de rapazes por cada 100 raparigas.
O estudo também mostra um desequilíbrio em todas as faixas etárias, excepto na dos 15 aos 19 anos. A diferença mais acentuada verifica-se na faixa etária dos 1 aos 4 anos, com 124 rapazes para cada 100 meninas.
As consequências sociais são variadas: em idade fértil, muitos homens já não conseguem encontrar companheira para constituir família. Será que se adivinham novos tumultos sociais na China?
Paula Pedro Martins
jornalista
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