Células estaminais embrionárias: A Luta de um Super-Homem
30 janeiro 2009
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O primeiro ensaio clínico com células estaminais embrionárias será feito em pacientes paraplégicos. O anúncio desta decisão da agência norte-americana do medicamento teria certamente deixado feliz Christopher Reeve, um dos maiores activistas desta causa.

 

O actor Christopher Reeve, que ficou célebre ao interpretar o papel de super-homem, faleceu em Outubro de 2004, não sem antes assegurar que a sua mensagem iria perdurar após a sua morte. Uma semana antes de morrer, Reeve gravou um spot televisivo em que apelava ao voto favorável dos californianos no referendo sobre a pesquisa de células estaminais embrionárias. “As células estaminais são o futuro da Medicina (…) e já mostraram serem eficazes no tratamento de animais com paralisia (…) Por favor, apoiem a proposta e ajam em nome daqueles que não o podem fazer”. O aclamado actor, que viu a sua promissora carreira acabar quando, em Maio de 1995, caiu de um cavalo, ficando completamente paralisado do pescoço para baixo, podia ter-se confinado à cadeira de rodas e à ventilação mecânica. Não o fez.

 

Tornou-se no maior activista a favor do uso terapêutico das células estaminais embrionárias, tendo até criado a fundação Christopher & Dana Reeve destinada a apoiar a investigação. A importância das células estaminais embrionárias advém do facto de terem capacidade de se transformar em vários tipos de células diferentes. O uso destas células conseguiu levar a que ratinhos paralisados voltassem a andar. Contudo, no primeiro ano do seu mandato, George W. Bush, alegando convicções morais e religiosas, decretou que o financiamento público de investigações com células estaminais embrionárias só se manteria para as culturas de células criadas até ao dia 9 de Agosto de 2001.

 

A luta de Reeve contra a posição de Bush contou com o apoio de inúmeras personalidades do mundo científico e cultural. As sondagens publicadas na altura revelavam que três em cada quatro americanos aprovavam o uso das células estaminais embrionárias para investigação. Reeve morreu em 2004, mas a polémica continuou a inflamar acessos debates públicos. Em Julho de 2006, as duas Câmaras do Congresso norte-americano aprovaram o documento que visava acabar com os limites impostos por Bush ao financiamento da investigação.

 

O presidente volta a não aprovar as modificações propostas à lei, nomeadamente em relação à data das culturas e à questão do financiamento público à investigação. "Esta lei permitiria pôr fim a vidas humanas inocentes, na esperança de encontrar vantagens médicas para outros. Ela vai além de uma fronteira moral que a nossa sociedade deve respeitar", explicou Bush, numa curta declaração para justificar o veto. No mesmo dia, um dos senadores mais influentes, o democrata Edward Kennedy, criticou o veto e vaticinou: "com ou sem o presidente, a investigação sobre células estaminais vai acontecer. É apenas uma questão de tempo". Na verdade, foi mesmo o que aconteceu.

 

Curiosamente, dias após a tomada de posse de Barack Obama como presidente dos EUA, a Food and Drug Administration (FDA) - a entidade norte-americana que regula a comercialização de fármacos e alimentos - autorizou a empresa americana de biotecnologia, Geron Corporation, a realizar o primeiro ensaio clínico com células estaminais embrionárias. Ainda este ano vai começar esse primeiro ensaio clínico, a efectuar em pacientes com danos recentes na medula espinal. Serão usadas células estaminais provenientes de excedentes de clínicas de fertilização, guardadas desde 2001, tendo a empresa assegurado que não vai usar recursos federais para a investigação, tal como a lei regula.

 

Entramos agora numa nova era da investigação com células estaminais embrionárias em humanos. Caso fosse vivo, Reeve ficaria imensamente feliz pela esperança que este estudo poderá trazer aos milhões de paraplégicos em todo o mundo: a esperança de voltar a andar.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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