Cada vez mais mulheres querem parto humanizado
15 julho 2010
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Um estudo recente refere que a mãe sofre menos mas que o bebé corre mais riscos se o parto for realizado em casa. Em Portugal, à semelhança da evolução que se vem a registar desde há décadas em muitos países da Europa, tem vindo a crescer o número de mulheres que optam por dar à luz em casa, mesmo sem condições para tal.

 

 

 

Um estudo publicado na revista “American Journal of Obstetrics and Gynaecology” refere que as mulheres cujos partos ocorrem em casa tendem a apresentar menos lacerações, hemorragias pós-parto e infecções, provavelmente devido à ausência de intervenção médica. Mas, por outro lado, o índice de mortalidade neonatal (nomeadamente complicações respiratórias e falhas na reanimação) sobe para o dobro nos partos realizados em casa, embora o risco se mantenha baixo (0,2%). Este trabalho comparou 342.056 partos domiciliários com 207.551 partos hospitalares ocorridos nos EUA e na Europa.

 

 

 

Faz praticamente um ano que a actriz e apresentadora Adelaide de Sousa passou por um dos piores momentos da sua vida. Grávida do primeiro filho, aos 40 anos, a actriz decidiu ter o parto em casa. Na altura, em entrevista à imprensa, a actriz dizia-se mais descansada por ter tomado a decisão de ter o seu bebé num sítio onde se sentisse segura emocionalmente e que respeitasse a sua privacidade. “Quero poder ter ao meu lado o meu marido, as minhas irmãs, a minha doula”.

 

 

 

A doula acompanha a futura mãe, dando-lhe dicas e recomendações, para que o parto seja o mais positivo possível.

 

 

 

De facto, o parto da actriz poderia ter corrido bem, mas não correu. Passou 4 dias em trabalho de parto e quando a sua vida estava em risco foi transferida para o hospital, onde o bebé acabou por nascer de cesariana passados 20 minutos.

 

 

 

Este caso infeliz não é regra no parto realizado em casa, que está cada vez mais a ser escolhido pelas mulheres portuguesas. Mas a decisão de querer dar à luz num ambiente acolhedor, conduz-nos a várias questões, entre elas, o que motiva uma grávida a colocar em risco a própria vida e a vida do bebé sabendo dos possíveis perigos que ambos podem correr.

 

 

 

Os avanços da medicina são, sem dúvida, uma bênção para a humanidade, evitando-nos o sofrimento e prolongando-nos a vida. Mas, num momento tão especial como é o do nascimento de uma criança, é normal que muitas mulheres não queiram estar envolvidas por um ambiente hospital.

 

 

 

Ao parto medicalizado, vários grupos de mulheres, incluindo portuguesas, têm contraposto a humanização do parto. Contudo, esta humanização não deve implicar uma renúncia dos cuidados, do auxílio e da sabedoria que a técnica e a ciência nos podem oferecer, devendo estes ser empregados, sempre que necessário, para garantir que o parto decorre da forma mais natural e num ambiente familiar e de intimidade.

 

 

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS), nas suas informações técnicas sobre a assistência ao parto, explica claramente que muitas das práticas que se vão juntando aos partos normais não são necessárias e algumas, inclusive, podem ser prejudiciais. Na lista de procedimentos comuns durante o parto que são questionados pela OMS estão a raspagem e aplicação do clister, o uso da oxitocina, a quase obrigação de dar à luz deitada e imobilizada (quando o método mais natural é o de cócoras), a ruptura da bolsa por rotina, os puxos dirigidos na fase de expulsão, a medicação para expulsar a placenta e a exploração do útero depois do parto.

 

 

 

Numa altura em que a mulher está tão fragilizada, recorrer a estas práticas, sem que elas lhe sejam explicadas e sem recolher a sua opinião, pode ter como efeito tornar um momento mágico numa situação traumática e a não repetir.

 

 

 

Para evitar estas situações constrangedoras, nos países do norte da Europa, por exemplo, é normal que a futura mãe expresse por escrito (numa espécie de plano de parto) que práticas deseja realizar e evitar durante o parto, deixando ao profissional a escolha da forma de actuar em caso de complicações.

 

 

 

Michel Odent, um prestigiado cirurgião e obstetra francês, afirma que “para que o parto decorra de uma forma mais natural possível - e para que não surjam complicações - é importante não existirem interferências no processo em que a mulher se ‘desliga’ do seu cérebro racional e submerge num cocktail hormonal que a ajuda a relaxar, a percepcionar menos a dor e a ter partos mais fáceis”.

 

 

 

Isto significa que, durante o processo de parto, a mulher deve ser deixada à vontade, deve ter liberdade de movimentos, deve poder escolher a música que quiser, deve estar num lugar aconchegado, com uma luz ténue, onde se sinta sempre segura e devem ser respeitados os seus ritmos e necessidades...

 

 

 

Ao contrário do que se passa nos países nórdicos, em Portugal não existem “casas de parto” (centros onde a mulher possa dar à luz num espaço agradável, semelhante ao de sua casa, controlada por um profissional de saúde avalizado, que lhe garanta segurança e conforto). Também não existe em Portugal o que é prática comum, por exemplo, no Reino Unido: na altura do parto, uma enfermeira parteira do serviço nacional de saúde vai a casa da grávida para a ajudar no trabalho de parto, e, caso o processo não decorra normalmente, é chamada uma equipa de emergência que a transporta para o hospital da sua área. Além de serem opções muito mais confortáveis e tranquilas para a mulher, as “casas de parto” e a deslocação da enfermeira à casa da parturiente também podem ser uma mais-valia para a tão apregoada contenção de despesas do serviço nacional de saúde, uma vez que, deste modo, só seriam hospitalizados os casos que necessitassem de supervisão médica.

 

 

 

De facto, as sociedades científicas vão adequando os seus protocolos para englobarem estas recomendações e há uma consciencialização cada vez maior dos profissionais que acompanham a mulher. Em Portugal, algumas maternidades já se renderam à humanização do parto. A Maternidade Alfredo da Costa (MAC) tem a funcionar onze quartos individuais de parto, um dos quais com a Roda de Partos, uma espécie de “cadeirão-baloiço gigante” que permite às parturientes escolherem a posição mais confortável para dar à luz. Também o Hospital de São João, no Porto, alterou os protocolos médicos relacionados com o parto, passando a parturiente a poder recusar o soro, a episiotomia e a monitorização cardiofetal e poder optar por se alimentar só a líquidos e adoptar as posturas que mais lhe agradarem no momento. No hospital também existe um quarto com ambiente acolhedor, sem tecnologia à vista e onde pode ser colocada uma banheira.

 

 

 

No Hospital Garcia de Orta, em Almada, também já existem quartos onde as camas permitem outro tipo de posturas alternativas à deitada e a denominada “bola de parto” (semelhante às usadas em aulas de Pilates) que ajuda a mulher a adoptar outras posições mais naturais.

 

 

 

Para a altura do parto é também importante que a mulher saiba outras coisas, por exemplo, que tem o direito a estar acompanhada por uma pessoa, que nem sempre será o pai da criança. Segundo um estudo dos investigadores Phyllis Klaus e John Kennell, a presença da doula no parto provocou reduções de: 50% na realização de cesarianas, 25% na duração do trabalho de parto, 60% nos pedidos de anestesia epidural, 30% nos pedidos de alívio da dor, 40% no uso da oxitocina sintética e 40% no uso de fórceps.

 

 

 

Se é verdade que vários especialistas clamam na imprensa contra os malefícios do parto em casa, por este colocar em risco a vida da mãe e do bebé, e, de certo modo, com toda a razão vinda do seu conhecimento, poucas vozes especializadas se juntam às das mulheres que, cada vez mais, não querem ser tratadas como doentes.

 

 

 

Nos antípodas do parto em casa está uma outra realidade, infelizmente, mais comum que o parto em casa: a cesariana. Contudo, para esta realidade convergem muitos factores sociais: a idade tardia das actuais mães, os métodos de inseminação artificial e os nascimentos múltiplos, a quase exigência de muitas mulheres em terem um parto programado com dia e hora e, finalmente, o medo da dor.

 

 

 

Embora a OMS advirta para o facto de o número de cesarianas não dever exceder os 15% do total de nascimentos, Portugal regista a segunda maior taxa de cesarianas da Europa: em 2009, mais de 33% do total de nascimentos ocorreram por cesariana. Dados da OMS revelam que os hospitais em que são realizados mais partos por este meio têm taxas mais elevadas de doenças maternas, uso de antibióticos e morte no pós-parto.

 

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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