Bondade é reconhecida em apenas 20 segundos
21 novembro 2011
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Existe um gene que influencia a sensibilidade, a empatia, a sociabilidade e o seu efeito é tão poderoso que até mesmo pessoas que observam estranhos durante 20 segundos de vídeo sem som são capazes de identificar aqueles que têm essa variação genética específica que os torna mais sociáveis. Os resultados da investigação foram publicados na “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS).

 

Na investigação participaram 23 pares de namorados. Enquanto um membro do casal descrevia um período de sofrimento nas suas vidas, foram registadas as reacções físicas, não-verbais, do outro elemento do casal. Mais tarde, um grupo de 116 pessoas (denominadas pelos cientistas de observadores neutros), que não conheciam os casais, assistiram às imagens de vídeo e opinaram sobre quão amável, sensível e de confiança lhes pareciam as pessoas que passavam no vídeo, com base em apenas 20 segundos de filme sem som.

 

Neste estudo, os investigadores partiram da seguinte questão: se as diferenças entre as pessoas se manifestavam em comportamentos rapidamente detectáveis por estranhos e verificaram que sim. "As nossas descobertas sugerem que a variação genética, mesmo leve, pode ter um impacto tangível sobre o comportamento das pessoas e que essas diferenças comportamentais são rapidamente captadas pelos outros", disse em comunicado de imprensa Alexander Kogan, da Universidade de Toronto, Canadá, e um dos principais autores do estudo.

 

O estudo baseia-se em pesquisas anteriores, conduzidas por Sarina Rodrigues Saturno, professora de psicologia da Universidade do Oregon, EUA, que também participou no estudo actual. No trabalho anterior, a investigadora verificou uma relação entre a variação genética que afecta o receptor de oxitocina à empatia e ao stress. "Foi incrível ver como os dados foram alinhados tão fortemente pelo genótipo. Faz sentido que um gene crucial para o processamento social produza estes resultados; outros estudos têm mostrado que as pessoas são boas a emitir um julgamento dos outros à distância e as primeiras impressões têm realmente um impacto", explicou a cientista em comunicado.

 

Antes de gravarem os vídeos, os cientistas analisaram os casais e identificaram o genótipo como GG, AG ou AA. Os indivíduos homozigóticos para o alelo G do receptor de oxitocina tendem a ser mais "pró-sociais", definido pelos investigadores como a capacidade de se comportarem de uma maneira que beneficie outra pessoa. Por outro lado, os portadores do alelo A do gene (os genótipos AA e AG) tendem a ter um maior risco de autismo, assim como baixos níveis de emoções positivas, empatia e sensibilidade.

 

A oxitocina tem sido relacionada com o sentimento de pertença social e com a redução do stress. Trata-se de peptídeo produzido no hipotálamo que tem efeito em todo o corpo e no cérebro, sendo mais conhecido pelo papel na reprodução feminina. Também está associado ao reconhecimento social, à resistência a respostas emocionais negativas, à confiança e ao amor.

 

Das 10 pessoas nomeadas pelo observador neutro como pró-sociais, seis eram portadoras do genótipo GG associado ao receptor da oxitocina. Por outro lado, das 10 pessoas descritas como "menos fiáveis", nove eram portadores do alelo A do gene.

 

"O gene do receptor de oxitocina, em particular, é muito interessante, dado que vários estudos sugerem estar relacionado como as pessoas pró-sociais se vêem a si mesmas", disse Kogan.

 

O que não é ainda conhecido, contudo, é a forma exacta como o gene afecta a biologia do comportamento, que continua a ser um tópico de pesquisa importante.  Este estudo aponta, de facto, que uma certa variação genética é uma contribuição para o comportamento humano pautado pela generosidade, mas não o único factor. De acordo com Kogan, “traços complexos como a bondade e a cooperação são extremamente improváveis de serem regulados por um único gene; é provável que existam muitos outros genes em jogo. Há também muitos factores não-genéticos que têm uma tremenda influência no tipo de pessoa. Todas estas diferentes forças genéticas e não genéticas reúnem-se numa rede extremamente complexa que dão origem à bondade e à compaixão".

 


Paula Pedro Martins
Jornalista

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