Bebés nascem com percepção musical
07 outubro 2010
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Os bebés são sensíveis à harmonia das notas musicais e, já nos primeiros dias de vida, são capazes de reconhecer as mudanças de tom e as dissonâncias.

 

Em termos musicais, a dissonância ocorre quando um intervalo (musical) não pertence à escala que está a ser tocada e produz um efeito estranho no ouvinte que pede uma resolução musical (consonância), de modo a que o resultado seja agradável.

 

Nos adultos, para processar o timbre, a melodia e a harmonia, bem como a estrutura e o significado das sequências musicais, são convocados os sistemas neuronais específicos, em especial os do hemisfério direito. No entanto, o que os cientistas ainda não sabiam era se a especialização desses sistemas resultava da exposição à música a longo prazo (ao longo da vida) ou se, no fundo, já estava presente na nossa própria estrutura neurobiológica, ou seja, já nascia connosco. Um modo de abordar essa questão consiste em examinar como funcionam esses sistemas após o nascimento, quando a experiência auditiva é mínima, ou seja, no bebé.

 

Num estudo publicado este ano na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS), investigadores da Universidade Vita-Salute del San Raffaele de Milão, Itália, liderados por Daniela Perani, usaram imagens de ressonância magnética para medir a actividade cerebral de 18 recém-nascidos enquanto ouviam música. Todos os bebés tinham entre um a três dias de vida.

 

Para o estudo, os cientistas colocaram os bebés a ouvir excertos de música tonal (baseada nos graus de uma mesma escala musical) ocidental e versões alteradas dos mesmos excertos. A primeira era uma peça para piano, a segunda consistia na mesma peça, mas com algumas notas um tom acima, e a terceira era totalmente dissonante.

 

Ao analisarem as imagens cerebrais para verificarem as partes do cérebro activadas durante o processamento da informação musical, os cientistas observaram que, em todos os bebés, o hemisfério direito no córtex auditivo primário foi activado, as mesmas zonas que são activadas durante a apresentação de trechos de músicas para adultos.

 

Mas ainda mais curioso foi o facto de os bebés apresentarem uma resposta diferente, igual à observada nos adultos, quando expostos a excertos musicais dissonantes: a activação do hemisfério direito ficava mais ténue, enquanto uma zona do hemisfério esquerdo (córtex frontal inferior esquerdo) era activada.

 

Perante os resultados, os investigadores não têm dúvidas em afirmar que o cérebro do recém-nascido apresenta já uma especialização hemisférica no processamento da música mesmo nas primeiras horas de vida. O resultado deste estudo vem ao encontro do que o musicólogo e investigador norte-americano Edwin Gordon tem dito ao longo das últimas três décadas: que a música deve ser ensinada aos bebés desde os primeiros dias.

 

Pioneiro na área da Investigação em Psicologia e Pedagogia Musical, Edwin Gordon, 84 anos, há mais de 30 anos que se dedica ao estudo do desenvolvimento musical de crianças recém-nascidas e em idade pré-escolar. É um fervoroso apologista do ensino da música aos bebés, desde os primeiros dias de vida. Há algum tempo, numa conferência que proferiu sobre o tema na Fundação Calouste Gulbenkian, tive a oportunidade de o questionar sobre o assunto.

 

Durante a conferência intrigou-me o facto de reforçar a importância de se ensinar música ao bebé, mas sem desafinações ou foras de tom, facto normalmente comum nos pais que nunca aprenderam música.  “Se os pais desafinarem a cantar vão criar uma confusão mental na criança e os prejuízos no futuro da aprendizagem musical vão ser muitos”, vaticinou o especialista, advertindo também que retardar o ensino da música para depois do primeiro ano de vida também poderá tornar a futura aprendizagem mais difícil, dado que os primeiros 12 meses são determinantes para desenvolvermos a percepção musical.

 

Autor de dezenas de manuais teóricos sobre o ensino da educação musical, Edwin Gordon aconselha pais e professores a começar por cantar trechos muito curtos, dar a ouvir ao bebé pequenos fragmentos musicais. Mas então as famosas canções de embalar, míticas da infância, que todos os pais gostam de cantar aos seus filhos? Edwin Gordon foi peremptório: “não devemos começar com canções elaboradas. Já viu alguma mãe começar a ler Shakespeare aos seus filhos? Começamos com contos curtos, os quais sejam possíveis de entender. A linguagem é um processo evolutivo, feito à medida que a criança vai crescendo, quando aprende a ler, já sabe falar. É o mesmo com a música”.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

 

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