Baby-blues ou depressão pós-parto?
05 março 2010
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Achamos que todas as mulheres são inundadas de felicidade quando lhes nasce um bebé - é esse o sentimento que a sociedade reconhece como apropriado face à maternidade. Mas uma coisa é a idealização que se faz deste acontecimento e outra, bem diferente, é a realidade vivida pelas mães. A verdade é que frequentemente as mulheres reagem mal ao nascimento dos seus filhos e, em muitos casos, a depressão ligeira que elas sentem inicialmente pode, se não for travada, ter consequências graves.

 

Depois da ansiedade da preparação para o parto, do esforço de dar à luz, de ficar internada num hospital – que, por mais agradável que seja, é um ambiente estranho e causador de stress - chega o momento em que a recém-mamã leva o seu filho para casa. Nessa fase, a mãe estará a precisar de um descanso profundo para recuperar física e psicologicamente de tudo aquilo por que passou. Mas o que ela vai encontrar é precisamente o oposto: é o bebé que chora, o sono que fica cortado pelo amamentar de duas em duas horas, o ficar em casa sozinha com o bebé enquanto o pai e a restante família vão às suas vidas…

 

A criança torna-se o centro de todas as atenções, toda a vida da mulher passa a ser ditada pelas necessidades do pequeno indivíduo. Acabam as saídas com as amigas, as idas às compras ou ao café. E, ainda por cima, quando se olha ao espelho, a mulher não se reconhece na imagem que vê reflectida, tal a distorção provocada pelas alterações hormonais e pelo peso ganho durante a gravidez.

 

Por tudo isto, não é de estranhar que a chegada de um bebé a casa tenha um impacto negativo no estado psicológico da mãe. A ideia arreigada na sociedade de que a mulher deve estar radiante com o nascimento do seu bebé contribui para a fazer sentir ainda pior: um defeito ou imperfeição no seu carácter impede-a de desenvolver os sentimentos naturais nestas circunstâncias, acha ela. E isso, por seu turno, pode levá-la a esconder estes sentimentos ambivalentes dela própria e dos outros. Sem partilha de emoções, estas mulheres correm um maior risco de só serem diagnosticadas quando a situação já é muito grave.

 

Estima-se que mais de 80% das mulheres que dão à luz sofram do chamado “baby blues”. Trata-se de um conjunto de sintomas que aparecem geralmente entre o 3º e o 10º dia do pós-parto e que consistem em alterações de humor, com tristeza ou irritabilidade, e insegurança perante a nova responsabilidade de cuidar do bebé.
 

“As mulheres afectadas por blues carecem de vigilância, atenção e de suporte pelos profissionais de enfermagem, que deverão, inclusive, informar as parturientes e suas famílias da forte possibilidade de ocorrência de alterações emocionais transitórias nos dias subsequentes”, alerta Ricardo Gusmão, professor de psiquiatria na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, num artigo sobre o tema escrito para o “Jornal do Centro”.

 

Contudo, enquanto o baby blues pode ter como factor de precipitação as explosões hormonais que ocorrem nessa fase e que passarão com o tempo, a depressão pós-parto é bem mais grave. Nesta, aos sintomas de blues aliam-se a outros, como uma desmotivação nos cuidados de si mesma e do bebé, que podem colocar a mãe e o filho em risco.

 

Estima-se que, em Portugal, 13 a 16 em cada 100 mães de bebés com menos de 1 ano sofram da doença. “As mães e as famílias não percebem muito frequentemente que não há culpados nesta situação e que se trata tão-somente de mais uma doença”, refere o psiquiatra.

 

Caso não seja tratada, a depressão pode persistir durante décadas, podendo ou não ser acompanhada de rotura afectivo-sexual conjugal e comprometer o desenvolvimento normal da criança: ela pode conduzir àquilo que o especialista denomina de “espiral depressiva transgeracional”. Isto significa que, ao serem privadas de “ ‘nutrientes’ afectivos básicos desde muito cedo, têm uma maior probabilidade à depressividade na adolescência e vida adulta.”

 

De acordo com a literatura médica, existem alguns factores de risco associados a esta patologia: sofrer de tensão pré-menstrual, de sintomas depressivos durante a gravidez, ter um historial clínico de distúrbios afectivos e problemas de saúde durante a gravidez e parto.

 

Mas um estudo publicado este mês na revista “Pediatrics” vem acrescentar mais dois factores de risco: viver numa grande cidade e ter pouco poder financeiro. Segundo os investigadores da University of Rochester Medical Center, dos EUA, 56% das mulheres avaliadas - 198 mães de bebés com menos de 14 meses - sofriam de depressão pós-parto e tinham em comum esses dois factores. Sim, de facto, estas duas situações podem condicionar a vida já de si complicada destas mães, dado que muitas estão longe dos seus familiares mais próximos, não podendo contar com o seu auxílio para a realização de muitas tarefas, o que lhes permitiria ter um pouco mais de tempo para si. Por outro lado, a falta de dinheiro impede-as de contratar uma babysitter, de encomendar comida de fora, de arranjar uma empregada para fazer limpezas...

 

Além do tratamento medicamentoso, da psicoterapia e da ajuda da família e dos amigos, alguns especialistas também defendem que cada país deveria criar redes de convivência em que as jovens mães pudessem partilhar as experiências com outras mulheres, muito à semelhança do que timidamente já começa a acontecer no nosso país com as doulas (mulheres que já tiveram filhos e que dão apoio prático na preparação para o parto).

 

O importante em todo este processo é partilhar angústias, medos e ansiedades com outros, de modo a exorcizar os sentimentos experienciados nestas situações e a devolver à mulher a alegria de ter um filho nos braços.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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Comentários 1 Comentar

Artigo. Baby blues

Parabéns, excelente artigo sobre a temática do baby blues!

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