Aprender a ler muda a estrutura do cérebro
04 Fevereiro 2011
  |  Partilhar:

Será que a alfabetização tem a capacidade de melhorar a função cerebral? E o que acontece ao cérebro dos analfabetos quando apreendem a ler? Para avaliar estas relações, uma equipa liderada por dois neurocientistas franceses obteve imagens pormenorizadas do cérebro de voluntários analfabetos e escolarizados e chegou a resultados surpreendentes.

 

A aprendizagem da leitura levanta várias questões científicas importantes em termos da sua influência sobre a função cerebral, dado que a escrita é uma invenção muito recente para ter influenciado a evolução genética humana. Que papel teriam, no passado, as áreas cerebrais utilizadas agora para a leitura? E o que ocorre actualmente com as funções anteriormente coordenadas nessas áreas? E será que o cérebro dos analfabetos é diferente? Estas eram algumas das questões já algum tempo aventadas pelos neurocientistas franceses Stanislas Dehaene e Laurent Cohen, do Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica francês (Inserm).

 

Segundo explicou em comunicado, Laurent Cohen, “não existe um sistema cerebral inato especializado na leitura”. Portanto, o que o cérebro humano faz é “uma colagem”, utilizando “sistemas que já existem".

 

Neste estudo publicado na “Science”, o qual contou com a colaboração de equipas brasileiras, portuguesas e belgas, partiu-se desta hipótese já consensual entre estes neurocientistas – que já tinham realizado estudos prévios sobre o tema - de que aprender a ler só podia estar relacionado com uma "reciclagem" do cérebro, ou seja, as regiões cerebrais, inicialmente dedicadas a outras funções, seriam moldadas e redireccionadas para outras funções, neste caso a leitura.

 

Para a análise, os investigadores usaram testes de ressonância magnética funcional para medir a actividade cerebral em todo o córtex de 63 voluntários adultos com diferentes graus de alfabetização: 10 analfabetos, 22 indivíduos que não frequentaram a escola na infância, mas que alcançaram a alfabetização já em adultos e 31 indivíduos que tinham frequentado a escola desde a infância. Todos os voluntários estavam bem integrados na sociedade, eram saudáveis e a maioria tinha emprego.

 

Uma curiosidade deste estudo residiu no facto deste ter sido realizado em paralelo em Portugal e no Brasil, países onde, refere a nota enviada à imprensa, “há dez ou vinte anos atrás, ainda era relativamente comum as crianças não irem à escola devido a questões como o isolamento e o ambiente rural”.

 

Enquanto eram submetidos aos exames de ressonância magnética para registar a actividade cerebral nas regiões envolvidas com as tarefas, os voluntários eram testados quanto às suas capacidades de leitura, através da projecção de séries de letras, palavras e de palavras inventadas, desprovidas de significado.

 

Como a leitura é uma aptidão essencialmente visual, também foram testadas outras formas de percepção visual, nomeadamente a identificação de padrões geométricos quadriculados em xadrez, reconhecimento de faces, casas, ferramentas e até falsas letras. E dado que a leitura tem semelhanças com a fala, os voluntários ouviam as palavras através de auscultadores.

 

Os investigadores constataram que o impacto da alfabetização sobre o cérebro "era maior do que os estudos anteriores davam a entender". Verificaram que aprender a ler aumenta as respostas no córtex visual, não apenas numa região especializada para a forma escrita das letras, mas também no córtex visual primário. Ler também aumenta a resposta à língua falada no córtex auditivo, o que, segundo os cientistas, explica-se pelo facto de os analfabetos não poderem realizar jogos de linguagem, como os de excluir o primeiro som de uma palavra.

 

A leitura também revelou uma activação de uma extensão do córtex linguagem e de uma outra, denominada “comunicação em dois sentidos”, entre a linguagem escrita e a falada. Na prática, isto significa que, quando um leitor vê uma frase activa o córtex da linguagem falada e ao ouvir uma palavra torna possível a rápida reactivação do seu código ortográfico convocado no córtex visual.

 

Para os indivíduos que não aprenderam a ler, o processamento da linguagem é menos flexível e estritamente limitado ao método auditivo. Da análise dos testes os cientistas verificaram que nos analfabetos, a área relacionada com a percepção visual das palavras – situada no lobo temporal do cérebro – era dedicada à identificação de faces e de padrões geométricos. Acontece que, à medida que vamos aprendendo a ler, o reconhecimento visual dos objectos e dos rostos desloca-se parcialmente para o hemisfério direito do cérebro. E se neste estudo os cientistas não conseguiram perceber se o facto de aprender a ler pode ter consequências negativas sobre a capacidade relacionada com o reconhecimento de rostos, verificaram, por outro lado, que o acto de aprender a ler, em qualquer altura da vida, muda a estrutura cerebral. 

 

“A grande maioria dos efeitos de aprender a ler sobre o córtex são tão visíveis nos indivíduos que frequentaram a escola durante a infância como naqueles que concluíram os cursos de alfabetização quando adultos”, referem os cientistas em comunicado, acrescentando que “para níveis semelhantes de leitura, praticamente não há diferenças mensuráveis entre as activações cerebrais em indivíduos que aprenderam a ler na infância ou na idade adulta”.

 

Paula Pedro Martins
Jornalista

 

Partilhar:
Classificações: 4Média: 4.3
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.