Animais sonham a dormir... e acordados...
09 Julho 2010
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A falta de investigações que avaliem, de facto, o modo de funcionamento dos animais é conveniente para que continuemos a tratá-los como seres inferiores, e, consequentemente, a infligir-lhes dor e a privá-los de liberdade e de vida.

 

Embora escassos, por falta de financiadores interessados nos resultados, e sem grande visibilidade na imprensa especializada, alguns estudos vêm comprovar que, afinal, os animais – sobretudo os mamíferos, incluindo o homem – têm mais semelhanças do que diferenças.

 

Muitos de nós reage a este tipo de afirmações, acusando quem as profere de antropomorfizar os animais, uma capacidade humana de transferir para os bichos sentimentos e emoções que se julga não existirem nos ditos seres inferiores.

 

Contudo, mesmo à falta de estudos científicos, que mais tarde ou mais cedo o irão comprovar, só quem nunca partilhou a vida com um animal pode acreditar que os animais são assim tão diferentes de nós.

 

Um dos raros estudos que se debruçou sobre o tema – liderado por Roy Britten, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), nos EUA, e publicado em 2002 na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” – verificou, por exemplo, que entre os homens e os chimpanzés a diferença genética era apenas de cerca de 5%.

 

De facto, comprovar que os animais são tão parecidos com o homem requer estudos dispendiosos que não servem os interesses de ninguém, a não ser os dos defensores dos direitos dos animais, e esses, infelizmente, não têm recursos financeiros capazes de alimentar anos de pesquisas.

 

Mesmo assim, Kenway Louie e Matthew Wilson, do Massachusetts Institute of Technology, nos EUA, conseguiram financiamento para estudar uma questão simples e que poderá abalar as crenças dos mais cépticos: será que os animais também sonham? Depois de quase uma década de pesquisas, eles respondem com um inequívoco “sim” a esta pergunta.

 

Para muitos donos de animais, é curioso (e até intrigante, dado que tomamos por garantido que os animais são seres desprovidos de consciência) verificar que, quando dormem, os cães, por exemplo, abanam a cauda, têm espasmos faciais e nas patas, suspiram, gemem e até uivam. Matthew Wilson refere que, de facto, o homem, os cães, gatos e restantes mamíferos têm um funcionamento semelhante do hipocampo – parte do cérebro envolvido na memória. "Quando comparamos o hipocampo de um rato com o de um cão, um gato ou o de um ser humano, todos contêm as mesmas peças", disse, sem grandes rodeios, o líder da investigação, citado em comunicado de imprensa do MIT.

 

E, tal como as pessoas, os animais passam por vários estágios do sono, atingindo o estágio REM (de "rapid eyes movement", ou movimento rápido dos olhos), no qual acontecem os sonhos. Por seu turno, a fase não-REM é composta por sonhos rápidos, geralmente de episódios que aconteceram naquele mesmo dia.

 

Durante a fase de sono mais profunda, a REM, os sonhos duram mais tempo e exploram um vasto conjunto de experiências que aconteceram nas semanas, meses e até anos passados.

 

Nas pessoas, a fase REM (ou seja, os sonhos) ocorre aproximadamente a cada 90 minutos de sono. Nos gatos, a cada 25 minutos, mas, nos cães, a frequência e a duração dos sonhos está ligada com o tamanho do animal, segundo contou ao sítio Healthfinder, o psicólogo Stanley Coren, autor de vários livros, incluindo “How Dogs Think: Understanding the Canine Mind”.

 

Segundo o especialista, os cães de grande porte sonham 5 minutos, a cada 45, enquanto os mais pequeninos entram num estado de sonho a cada 10 minutos, com episódios que duram menos de 60 segundos.

 

Neste capítulo, o que poderia ser mais difícil de descortinar é com o que é que sonham os animais. Muito embora os animais não falem, os mesmos cientistas acreditam saber a resposta. Um estudo liderado por Matthew Wilson, publicado em 2001, incidiu sobre a análise da actividade cerebral de ratinhos nos estados de sono e vigília (acordado) e verificou que determinadas partes do cérebro manifestavam, nos dois períodos, reacções idênticas (analisadas com base nos sinais neuronais recebidos através da faixa de eléctrodos colocada em cada roedor) e com a mesma intensidade. Para os cientistas, isso poderá ser um sinal de que o rato sonha com a acção vivida durante o dia: neste caso, os momentos excitantes do dia-a-dia consistiam em percorrer o labirinto e ser recompensado com comida.

 

Matthew Wilson não tem dúvidas em afirmar que esta capacidade de sonhar com experiências reais não é exclusivamente humana e que ela se aplica aos animais de estimação. “A menos que haja algo especial nos ratos ou nos seres humanos, acontece exactamente o mesmo em gatos e cães”.

 

Mas, numa análise mais recente, Wilson foi além do estudo dos conteúdos dos sonhos e almejou perceber o que acontece dentro do cérebro dos roedores quando estão acordados. O cientista viu, através dos sinais neuronais, que os ratos parecem ser acometidos por memórias, por exemplo, enquanto mordiscam os alimentos ou quando estão sentados em silêncio, o que sugere que, tal como nós, possuem uma gama complexa de habilidades cognitivas. “Pensam sobre o passado e, possivelmente, contemplam o futuro”, avançou o cientista.

 

Esta poderá ser uma teoria que consiga desarmar os argumentos de quem afirma que os animais agem apenas por instinto e, tal como diz o cientista, "entender as diferenças dar-nos-á uma melhor compreensão de onde estamos na hierarquia dos organismos no planeta".

 

Para rematar este artigo, nada melhor do que citar Charles Darwin: “Se se conseguir provar que um animal sonha, então, na verdade, pode-se provar que é consciente. Porque, afinal, o que é um sonho se não uma imagem consciente?"

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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