Adopção homossexual à luz das ciências sociais
08 fevereiro 2010
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Os opositores da adopção de crianças por homossexuais apontam várias circunstâncias que supostamente os impedem de serem bons pais: comportamentos promíscuos, relações pouco sólidas e com múltiplos parceiros, doenças sexualmente transmissíveis. Todos eles argumentos de peso, sem dúvida. No entanto, uma vez que se baseiam exclusivamente em estudos sobre comportamentos individuais, eles não têm sustentação científica.

 

A maior metanálise realizada até ao momento – e que teve por objectivo analisar a educação dos filhos e o género dos pais - concluiu que não é o sexo dos adoptantes que faz a diferença no bem-estar das crianças.

 

Este é, sem dúvida, um tema fracturante das sociedades modernas. Em Portugal, a questão da adopção por casais homossexuais tem originado acessos debates políticos e dividido a sociedade civil. Também nos EUA, o debate tem gerado polémica: nem os democratas, actualmente no poder, nem os republicanos, durante a presidência de George W. Bush, deram sinal de conseguir chegar a um consenso sobre este tema.

 

"Há uma visão profundamente enraizada e amplamente difundida de que, para o seu bem, as crianças precisam de uma mãe e um pai (…) mas a questão é que essa ortodoxia é supostamente apoiada não só por uma crença, mas pela investigação (…) no estudo procurámos estes dados em todo o lado e descobrimos que, de facto, não há nenhuma pesquisa que mostre que as crianças precisem de uma mãe e de um pai".

 

Judith Stacey, professora de sociologia e de análise social e cultural na Universidade de Nova Iorque, EUA, e Timothy J. Biblarz, director do departamento de sociologia da Universidade da Califórnia do Sul, analisaram 20 anos de pesquisas realizadas sobre a área e, no artigo publicado este mês na revista “Journal of Marriage and Family”, concluíram que, no que diz respeito à capacidade de educar as crianças de um modo saudável e ajustado, os casais do mesmo sexo são iguais aos casais heterossexuais.

 

Para chegarem a esta conclusão, os investigadores analisaram 81 estudos, realizados desde 1990, que centravam a sua atenção numa das seguintes duas categorias: estudos que comparavam mães solteiras e pais solteiros e estudos em que famílias monoparentais eram comparadas com casais de lésbicas e casais heterossexuais em termos de competências parentais.

 

Em termos de competências parentais, os estudos analisados mediram a dinâmica familiar, com base em itens como consistência parental, nutrição, comunicação, estrutura, programação, estabilidade, conflito e abuso. Em termos de bem-estar infantil, avaliaram as medidas de desenvolvimento psicossocial, como a auto-estima, desempenho escolar, as relações entre colegas, o estado de saúde mental e depressão, problemas sociais e abuso de substâncias.

 

Da análise, os investigadores não encontraram nenhuma prova de diferenças nas capacidades parentais nas várias famílias, com a excepção parcial do "aleitamento", observando que "muito pouco sobre o sexo dos pais tem importância para o ajustamento psicológico e sucesso social das crianças. "

 

De facto, refere o estudo, existem muito mais semelhanças do que diferenças entre os filhos de mães lésbicas e os filhos de heterossexuais.

 

Em média, adianta o comunicado enviado à imprensa pelos investigadores, "duas mães tendiam a brincar mais com os seus filhos, estavam menos propensas a utilizar a disciplina física e eram menos propensas a criar filhos com atitudes machistas."

 

Contudo, tal como nos pais heterossexuais, as exigências da vida quotidiana na nova parentalidade também afectam os casais de lésbicas, que, para além disso, têm de lidar com situações de conflito interior e com a falta de um reconhecimento legal da relação.

 

O estudo também alertou para a circunstância de as mães biológicas lésbicas assumirem a grande fatia da responsabilidade do cuidado dos filhos, reflectindo as desigualdades entre os casais heterossexuais.

 

Contudo, os cientistas não conseguiram concluir o mesmo sobre as famílias gay do sexo masculino dado que, conforme referem, os estudos ainda são muito limitados. Mas, segundo Judith Stacey, os resultados das futuras pesquisas com famílias de homossexuais masculinos irão ser, em princípio, semelhantes.

 

Os investigadores concluíram que homens e mulheres da mesma classe social e escolaridade são muito semelhantes na forma como são pais e que estes dois componentes têm um impacto maior na educação das crianças do que o género dos indivíduos que constituem o casal. Em resumo, Judith Stacey, refere que o tipo de família melhor para as crianças deve reger-se pela responsabilidade e estabilidade parental. “Dois pais são, em média, melhor do que um, mas um pai realmente bom é melhor do que dois não tão bons. O sexo dos pais é apenas uma questão de forma que não importa.”

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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Comentários 1 Comentar

Adoção Homossexual

Olá Paula, essa máteria é mto boa. Obrigado por compartilhar.
Importante para os pais, de um modo geral, é saber que o importante para o desenvolvimento da criança é ter afeto, educação, amor..

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