A vida emocional dos bebés
29 junho 2010
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A relação entre pais e bebés tem vindo a mudar ao longo dos séculos, tal como mudaram as condições de vida e as próprias mentalidades. Se é um facto incontestável que o amor dos progenitores pelos pequenos seres é transversal à história da humanidade, a comunicação entre ambos nunca terá sido tão valorizada como o é desde os últimos avanços da neurociência, ocorridos nas últimas décadas do século XX.

 

Durante o século passado, cientistas e médicos preocuparam-se mais com o lado fisiológico do crescimento do bebé e menos com o lado emocional. Por exemplo, para Piaget, grande estudioso do desenvolvimento intelectual humano, falecido em 1980, os bebés vêm ao mundo somente com alguns reflexos básicos, sendo que o pensamento só surge realmente por volta dos dois anos de idade.

 

Os avanços no estudo da neurociência vieram pôr em causa esta e muitas outras teorias. E uma das consequências dos novos desenvolvimentos científicos ocorridos desde as últimas décadas do século XX foi o ter-se começado a falar sobre a vida emocional dos bebés de uma forma mais sustentada.

 

De acordo com Pedro Caldeira da Silva, director da Unidade da Primeira Infância do Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, se “na verdade, ainda pouco se sabe do ponto de vista emocional”, já se vai sabendo mais sobre o que ocorre quimicamente no cérebro do feto e do recém-nascido.

 

Pedro Caldeira da Silva defende ser consensual entre a comunidade científica que, ao nascer, os bebés vêm apetrechados com mais ferramentas do que se pensava. “Ouvem e vêem antes de nascerem: possuem uma distância focal de 20 centímetros, a distância do mamar para a face da mãe, e mostram uma apetência para a voz humana (da mãe e do pai) à qual foram expostos durante a gravidez”.

 

Antes dos novos dados trazidos pela ciência, era aceite pela comunidade científica que a arquitectura cerebral estava estabelecida no nascimento. “Mas a ciência provou-nos que o cérebro é à nascença bastante imaturo, a partir daí (inicia-se a morte das células cerebrais) e nos primeiros anos de vida há uma explosão das ligações cerebrais”. Daí a importância de favorecer estas duas situações de “desbaste” e de “enxertia”, adequando o ambiente às necessidades e características da criança.

 

Sabe-se que há períodos críticos para o estabelecimento de determinadas ligações e que, se esses períodos forem ultrapassados, algumas funções são irremediavelmente perdidas. Por exemplo, é sabido que é necessário operar uma catarata congénita o mais cedo possível, dado que, se os estímulos visuais não chegarem até ao córtex visual, o bebé corre o risco de nunca chegar a ver.

 

Do ponto de vista da linguagem também é importante que os bebés comecem a ser expostos à língua desde os primeiros momentos de vida e vários estudos comprovaram já que os bebés que vivem em ambientes ricos em linguagem têm um desenvolvimento mas acelerado. Mas é curioso, adianta o pedopsiquiatra, “porque a linguagem que usamos em adultos é adquirida na infância e pré-adolescência, entre os nossos pares. Facto que sugere a existência de oportunidades de reparação durante a vida”. Essa capacidade de recuperação, que se estende até à idade adulta, tem que ver com a plasticidade cerebral.

 

Segundo o especialista, na perspectiva da organização neuronal do ser humano, o desenvolvimento emocional do bebé resulta de uma interacção entre o próprio património genético e o meio ambiente em que as crianças se desenvolvem.

 

Há um conjunto de elementos que a prática clínica já estabeleceu como sendo importantes para ajudar os bebés a crescer e que funcionam como condições necessárias para um crescimento saudável. “Mas não é garantido que, mesmo com estas condições, a criança não tenha psicopatologia; ou, por outro lado, que uma criança ansiosa se desenvolva pior”.

 

Estudos efectuados na Unidade da Primeira Infância do Dona Estefânia mostraram que muitas das crianças assistidas apresentam psicopatologia apesar de terem padrões de vinculação chamados “seguros”. Por isso, conclui o especialista: “A vinculação é importante, mas não é um selo de garantia contra uma possível psicopatologia”.

 

Pedro Caldeira da Silva refere uma investigação efectuada nos EUA junto de famílias de risco psicossocial, em que se procurou associar a vinculação ansiosa a problemas de desenvolvimento nas crianças, cujos resultados apontaram a “indisponibilidade emocional” e a “insensibilidade face aos seus apelos” como os factores que mais afectaram o desenvolvimento da criança, mais ainda do que a exposição ao abuso (violência e abuso sexual).

 

Depois, remata o especialista, existe mais um factor a ter em conta: o do temperamento da própria criança, “com umas a adaptarem-se melhor às mudanças e outras, as mais difíceis, a protestarem todo o dia.”

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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