A Morte Anunciada de Eluana Englaro
06 fevereiro 2009
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Dez anos após o começo de uma luta judicial pelo que diz ser um direito, um pai italiano conseguiu a autorização do Supremo Tribunal para suspender a alimentação artificial da sua filha. A decisão vai ser executada dentro de dias. Eluana Englaro tinha 22 anos quando um acidente de viação a atirou para um estado vegetativo profundo, do qual nunca saiu. Em 1999, sete anos após o trágico acidente, o pai, Beppino Englaro, encetou uma batalha legal pelo direito à morte da filha.

 

Em Dezembro de 1999, o tribunal de Milão rejeitou o pedido. O pai interpôs recurso para o Supremo Tribunal, que foi novamente indeferido, em 2005. Em 2007, Beppino Englaro volta a pedir a revisão da sentença junto do Supremo Tribunal e em Julho de 2008 consegue, finalmente, autorização legal para que seja retirada à filha a sonda da alimentação e o soro. No meio de toda esta polémica que está a apaixonar a opinião pública italiana e mundial, o Vaticano tem desferido duras críticas ao pai e ao tribunal que autorizou a morte de Eluana.

 

Ao longo dos últimos anos, a Igreja tentou persuadir o pai e os profissionais de saúde a deixarem Eluana viver. Numa missiva publicada na imprensa italiana, a clínica de Lecco, perto de Milão, onde a jovem esteve internada durante os últimos anos - e que é administrada por freiras da ordem de São Geraldo -, condenou a decisão do tribunal e demonstrou a sua disponibilidade para tratar e manter viva Eluana.

 

De facto, depois da aprovação do Supremo Tribunal, o pai deparou-se com outro problema: Quem iria colaborar na morte da sua filha? As pressões não chegaram só do Vaticano. Em Dezembro, o ministério da Saúde italiano (governo liderado por Sílvio Berlusconi) enviou uma circular para as clínicas privadas do país avisando que quem suspendesse a alimentação artificial de Eluana se arriscaria a ver o seu estabelecimento encerrado.

 

As questões éticas e morais em torno da morte de Eluana são imensas. Será que ela afirmou mesmo que, caso viesse a estar numa situação como esta, quereria morrer? Após a decisão favorável do tribunal, o pai, numa das suas raras declarações em público, defendeu que se tinha dado “o primeiro passo para (conseguir) a libertação da minha filha”.

 

Do mesmo modo, em todos os seus combates travados nos tribunais, nunca se cansou de repetir que a filha, se pudesse manifestar a sua vontade, não quereria viver naquele estado e preferiria a morte. Esta semana, à porta da clínica de Lecco, um grupo de pessoas protestava contra a eutanásia. Nos cartazes que envergavam lia-se: "Quem costuma actuar de noite são os ladrões e os assassinos". Eluana foi transferida durante a madrugada de segunda-feira para a clínica La Quieta, em Udine, no nordeste de Itália, a única que aceitou, até ao momento, participar na morte da jovem.

 

Em declarações dadas à imprensa, um dos 15 profissionais que se associaram para fazer cumprir a decisão, o neurologista Carlo Alberto Defanti, garantiu que “ela não sofrerá”. A alimentação artificial será suspensa e a morte deve acontecer dentro de 15 a 20 dias.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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