A dor dos "membros fantasma" dos amputados
08 junho 2009
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A ciência ainda não consegue explicar ao certo por que razão muitos amputados passam a sentir dor nos membros que já não possuem. E a verdade é que, se muitos destes pacientes beneficiam de tratamento, nomeadamente psicoterapêutico, outros não respondem aos tratamentos disponíveis. Contudo, um investigador indiano testou recentemente uma nova técnica que parece funcionar nos casos mais severos.

 

Num capítulo exclusivamente dedicado aos vários tipos de dor em “membros fantasma” decorrentes de múltiplas amputações, Rupert Sheldrake, investigador na área da bioquímica e autor do livro “7 Experiências que Podem Mudar o Mundo”, relata o caso de uma jovem a quem tinham sido amputadas as duas pernas aos 16 anos, na sequência de um acidente de automóvel.

 

Passado algum tempo, a jovem passou a apresentar queixas de dor e ardor no “membro fantasma”. O psiquiatra que a acompanhava, através do uso de hipnose tomou conhecimento de que, na altura do acidente, a jovem tinha pedido ao médico que não incinerassem as pernas amputadas, mas antes que as enterrassem. Contudo, o médico ignorou o seu pedido.

 

Este caso, descrito pelo investigador da Cambridge University, no Reino Unido, como um dos poucos por ele encontrados na bibliografia médica em que houve uma cura completa, foi tratado pela psiquiatria através da sugestão, induzida por hipnose, de que, embora a jovem não tivesse alcançado o que queria, ou seja, um funeral para as suas pernas, elas continuariam a acompanhá-la de uma forma espiritual.

 

Esta é apenas uma das histórias narradas pelo investigador, que alerta para o facto de, durante anos, muitos pacientes que sofreram dores dilacerantes em membros amputados as terem omitido dos seus médicos, com receio de serem considerados loucos.
 

Hoje sabe-se que, com grande frequência, as dores dos “membros fantasma” são de ordem fisiológica. Contudo, a dificuldade reside na cura completa. Muitos pacientes tentam, em vão, de tudo: microcirurgia para a remoção das extremidades dos nervos do coto, estimulação eléctrica do cérebro, analgésicos e medicinas alternativas.

 

Mas por que razão permanecem as dores? A neurociência apenas tem uma explicação parcial para o fenómeno. Sabe-se que, logo após uma amputação do membro, o Sistema Nervoso Central (SNC) começa a reajustar-se, percorrendo um caminho que vai da ausência de impulsos nervosos no membro amputado até ao crescimento de novas terminações nervosas no coto. Contudo, isso pode não acontecer e tornar-se incessantemente (ou intermitentemente) doloroso, sem responder aos tratamentos existentes.

 

Um dos maiores estudiosos nesta área, o neurofisologista indiano Vilayanur Ramachandran, da University of California, em San Diego, EUA, tem vindo a investigar a dor dos “membros fantasma”. Num artigo publicado no ano passado na revista "New Scientist", Ramachandran relata o resultado de experiências feitas ao longo de quase uma década. Nelas, o cientista traz novas esperanças aos amputados que, sem êxito, tentam de tudo para se livrar da dor.

 

No estudo, que contou com a participação da sua mulher Diane Rogers-Ramachandran, também ela investigadora na área de psicofisiologia, foi verificado que a dor do “membro fantasma” pode ser minimizada através da visualização de gestos de massagem na suposta região dolorosa do corpo.

 

Numa situação normal, massajar a pele ajuda a aliviar a dor, restabelecendo a circulação sanguínea e activando as células sensoriais que inibem as mensagens dolorosas enviadas ao cérebro. Segundo os cientistas, no caso dos amputados, o sinal que chega ao cérebro diz respeito a sensações ilusórias que ocorrem devido a uma espécie de “efeito de espelho”.

 

Foi a partir dessa evidência que os investigadores criaram precisamente um sistema de “caixa-espelho”, capaz de dar aos amputados a impressão de verem o seu membro em falta.
 

Os testes mostraram que os voluntários, ao verem a sua mão intacta ser tocada, tiveram a impressão de que a mão desaparecida também era acariciada. Na opinião de Vilayanur Ramachandran, se este tipo de terapêutica for utilizado suficientemente cedo, pode também ajudar vítimas de AVC (Acidente Vascular Cerebral) na recuperação de movimentos perdidos.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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Comentários 3 Comentar

Dor Fantasma

Olá. Tive o membro direito amputado na altura da coxa em 2008. Sempre senti formigamento ou sensação de 'enfaichamento' no pé, mas há poucos dias comecei a sentir dolorosos choques no peito e lateral do pé. Chego a gritar, pois eles vem de repente. A massagem no coto ajuda, mas os choques não param. Espero que não dure muito. Tomei um comprimido que me deixa bem grogue. Ainda não fez efeito.

dores fantasmas.

Caros amigos, tenho 43 anos e tive um tumor em meu ombro esquerdo e tive que desarticular, retirar o ombro completo.
depois disso a dor fantasma é constante, me parece que tenho todo o braço e sinto muitas dores e formigamentos, tomo tranquilizantes mas só me auxiliam no sono, no mais durante o dia tenho sempre dor.

dores sazonais

Olá, meu nome é Fernando, tenho 30 anos e tive amputação de mie a baixo do joelho aos 18 anos...
Sou usuario de protese e tenho pelo menos uns 3 ou 4 ataques de dor fantasma a cada semestre... para a dor parar apenas remedios dopantes, entretanto a qualidade de vida durante estes periodos que podem ser de uma semana até duas com ataques mais agressivos são realmente críticos!
Com várias tentativas de achar metodos empiricos para bloquear as dores... pois elas aparecem do nada... acho que o que realmente pode ser feito para a melhora das dores e manter a mente ocupada... tentar trabalhar este aspecto... ler livros... assistir muita tv.. ou trabalhar bastante... se a ciência é incompetente para achar o problema então devemos fazer de forma empirica uma busca que realmente minimize o problema!

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