A ditadura dos saltos altos
15 outubro 2009
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Criados, inicialmente, para protegerem os pés, os sapatos são actualmente peças imprescindíveis a quem quer estar na moda. Mas não será uma verdadeira ditadura a ideia difundida ao longo de décadas de que uma mulher de saltos altos é muito mais elegante? Os malefícios dos saltos altos são por demais conhecidos e agora até os sindicatos britânicos apresentaram uma contestação pública contra o seu uso.

 

Pessoalmente nunca fui adepta dos saltos altos, não por os achar inestéticos, mas, sobretudo, porque é muito mais importante sentir-me confortável e isso, confesso, só acontece com calçado que não tenha mais de quatro centímetros de altura.

 

A certa altura, na entrada da vida adulta, comecei a ser questionada por as minhas escolhas a nível de calçado não serem as que são impostas pelas convenções sociais. É quase imperativo que uma mulher use saltos altos quando é convidada para, por exemplo, um casamento, assim como é quase obrigatório exibir saltos altos para um jantar de negócios.

 

Esta é, infelizmente, mais uma das muitas imposições que o mundo ocidental tem colocado sobre os ombros das mulheres. Elas têm de estar bonitas e elegantes em todas as situações, ser boas mães, filhas, mulheres e amigas…ah e boas profissionais, boas donas de casa, enfim, o rol é infindável.

 

Por isso, não parece descabido que, num congresso anual de sindicalistas britânicos realizado recentemente em Liverpool, o sindicato de pedicuros e podologistas tenha apresentado uma moção contra o uso dos saltos altos no contexto profissional. No documento pode ler-se o seguinte: "O Congresso pensa que os saltos altos podem parecer sedutores nas passarelles de Hollywood mas eles são totalmente desadequados para uso quotidiano num ambiente profissional”.

 

A sindicalista Lorraine Jones, que apresentou a moção, enumerou os múltiplos problemas de saúde causados pelo uso “crónico” de saltos altos, tais como bolhas, calos, dores nos pés e joelhos e articulações danificadas. E salientou que no Reino Unido são perdidos dois milhões de dias de trabalho por ano por causa de problemas ligados aos membros inferiores.

 

A moção apelou, por isso, aos empregadores cujo código de vestuário "exija o uso de saltos altos para que analisem o risco que correm as funcionárias e para que os avaliem convenientemente e, em alguns casos, para que aceitem o uso de sapatos práticos e confortáveis".

 

De facto, as opiniões apresentadas na moção têm sustentação científica. Um estudo publicado este mês na revista “Arthritis Care & Research” revela que as mulheres que usam sapatos de salto alto durante a juventude correm um maior risco, na ordem dos 60%, de apresentarem, a partir da meia-idade, dores no peito do pé, tornozelo e tendão de Aquiles. O estudo, liderado por Alyssa Dufour, da Boston University, analisou 3.378 homens e mulheres do estado de Massachusetts, com uma média etária de 66 anos.

 

Num outro estudo, desta vez brasileiro, da Universidade de São Paulo, foi analisada a influência do calçado de salto alto na postura e na marcha de 100 jovens, com idades entre os 13 e 20 anos, metade das quais usava saltos rasos e as restantes usavam saltos altos.

 

Os resultados mostraram que o uso do salto alto influencia de forma negativa tanto a postura da coluna lombar, pélvis e membros inferiores, quanto a marcha das jovens em fase de crescimento. Em comunicado de imprensa publicado no sítio oficial da universidade, a líder da investigação, a fisioterapeuta Patrícia Pezzan, explicou que “qualquer uso de salto alto por muitas horas seguidas, e muitas vezes na semana, pode trazer problemas em qualquer idade. Mas, se as adolescentes já começam cedo a fazer uso prolongado do salto alto, podem terminar a fase de crescimento ósseo e muscular já com alterações na postura e na marcha. Essas alterações, ao longo do tempo, podem gerar dores, um desequilíbrio muscular muito grande, stress articular e até degeneração das articulações”.
 

Tudo boas razões para optar, definitivamente, por um calçado confortável e, já agora, saudável.

 

Paula Pedro Martins
jornalista

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