mudar o radiador

Segundo as notícias, parece que vai ser possível ter no armário um fígado, um coração e outras peças suplentes para que as possamos trocar quando for necessário, pelo menos na Inglaterra.

Pessoalmente não vejo mal nenhum nisso. É muito melhor que precisar-mos dum transplante de coração e ficar na lista de espera até morrer disso. Concordo com a nova lei Britânica e concordo também com a imposição do limite na criação de um ser completo, pois não vejo interesse nenhum em fazer-mos um gémeo igual a nós próprios, pois afinal de contas não vamos passar a existir duas vezes e não deve ser muito bom saber-mos que a nossa existência se deve ao narcisismo de outra pessoa.

Agora a pergunta, se uma pessoa puder trocar os órgãos conforme lhe for necessário, para quantos anos se vai aumentar a sua esperança de vida? Até a operação correr mal e o órgão ser rejeitado? Ou irá acabar por correr alguma coisa mal e o corpo morre sem dar aviso algum e sem que se possa trocar a peça a tempo?

Um outro cenário... Imaginemos que daqui a uns anos já temos tecnologia que permita transferir um cérebro de um corpo para o outro. Imaginemos que uma pessoa de 20 em 20 anos faz um clone de si mesmo sem cérebro e vai trocando de corpo de cada vez que este chega aos 40. Até que ponto será possível fazer isto? E até onde aguentaria o cérebro?

Reconstituição de orgãos

Caro Elcrítico,

Mais uma intervenção interessante!
Porque são várias as suas questões que levanta, vou responder a cada uma numa mensagem separada, para me alongar...

1- Quanto à possibilidade de reconsitituição de orgãos:

Vem de facto aí mas ainda vai demorar algum tempo a chegar, penso eu. Isto porque embora haja muita gente a ficar progressivamente interessada no tema dentro da comunidade científica, há ainda problemas importantes por resolver.

É assim: já há muito tempo que se faz cultura de células. Diversos tipos de células podem ser mantidas em laboratório e é relativamente simples fazê-las proliferar até que atingam a confluência numa camada de células aderentes aos frascos ou placas de cultura de células.

Outras células, como algumas derivadas do sangue, crescem em solução.

Mas, quer num caso, quer noutro, o que se faz na maior parte dos casos de culturas de células é um pouco de witch crafting, como dizia um conhecido investigador. Isto porque na fórmula dos meios de cultura se encontra soro (derivado do sangue), que é uma mistura pouco definida de componentes. Temos, assim, um pequeno primeiro problema de conhecimento impreciso do que permite manter as células em crescimento em laboratório mas, Ei!, pode ser que se possa avançar sem perceber tudo!

Todavia, para reconstituir orgãos, é preciso mais do que simplesmente deixar as células crescer numa camada sobre plástico. É preciso formar uma estrutura. Muito mais complicado.

Como se pode ler num destaque do saudenainternet.pt sobre este assunto, já existem materiais semisintéticos tridimensionais que permitem às células crescer e até preencher espaços.

Enquanto nas habituais culturas de células se lida com um só tipo celular, um orgão é constituído por muitos tipos de células diferentes com leis de interacção e relação posicional ou arquitectural entre si.

Partindo do princípio de que existe um princípio de self assembly que se aplique às interacções entre células, poderia ser que a montagem de um orgão a partir de um conjunto inicial de células seja possível e possa acontecer em certa medida se as células fizerem sozinhas o trabalho que sabem fazer, mas aparecem problemas que têm a ver com a chegada de estímulos no momento certo e a criação e evolução de microambientes onde as estruturas se desenvolvem.

O desenvolvimento de um orgão é fruto de um conjunto de muitas interacções entre células, muitas das quais desconhecemos.

Mas estruturas relativamente simples como vasos já estão a ser produzidos em muitos laboratórios. Temos agora de os aperfeiçoar.

Um colega meu está no Japão a tentar criar rins.

Em termos da minha posição pessoal sobre este assunto, penso que há grandes vantagens na criação de orgãos que possam sustituir orgãos doentes ou danificados, mas gostava que cada orgão fosse desenvolvido a partir de células retiradas da pessoa que precisa do orgão ou de dadores adultos e não de embriões humanos.

Vou ver se ataco em seguida o segundo ponto da sua mensagem. Até já! Entretanto, se quiser, vá dizendo coisas.

M. Jorge Guimarães

RE: mudar o radiador

Em resposta ao Elcritico,

Se formos substituindo os orgãos, quando tal for possível, teremos de enfrentar o envelhecimento dos tecidos conjuntivos (ou de suporte), da pele, dos neurónios, etc. É difícil antever o efeito que a substituição dos orgãos viscerais poderá ter sobre o prolongamento da vida.

A substituição do corpo é outra questão. Parece uma ideia de ficção científica mas se os governos vierem a autorizar a clonagem humana, tornar-se-á quase inevitável.

Há já grupos a trabalhar na possibilidade de transplantar um cérebro. É difícl, mas não duvido que venha a ser possível.

Se um indivíduo pudesse ir trocando de corpo, a sua vida seria limitada pela do seu cérebro. Com a idade, os neurónios também começam a funcionar com menos eficácia e a morrer, daí que seria necessário saber prolongar a vida dessas células para tirar partido da sua ideia.

M. Jorge Guimarães