Humanismo médico contemporâneo em oncologia.

No ano de 2002 foi-me diagnosticado um cancro cujo tratamento envolveu quimioterapia durante aproximadamente um ano e meio.
Os tratamentos iniciais foram realizados num hospital, e a cirurgia e quimioterapia pós-cirúrgica num outro hospital.

Estranhamente, apercebi-me desde as consultas iniciais, que a médica que me assistiu após a cirurgia tinha informações e ideias pré-concebidas a meu respeito. Com o decorrer dos tratamentos e dos contactos com a médica, constatei que essas informações seriam provenientes de pessoas directamente relaccionadas com um caso de mobbing na administração pública de que tinha sido alvo cerca de quatro anos antes.
A oncologista não se dispunha facilmente a ouvir-me quando lhe tentava relatar problemas de saúde decorrentes dessas situações, e que considerava poderem ser importantes para a compreensão da minha doença oncológica. No entanto, apercebia-me que era receptiva a outras fontes de informação externas à consulta.
Obviamente conheço a verdade da minha história, e percebia que as histórias que lhe transmitiam tinham por objectivo ocultar e inverter a verdade, e manipular a opinião.
Igualmente estranhas eram por vezes a sua atitude assumida de que não me dava apoio, e uma certa perversão dos conceitos de hipocondria e simulação. Revi neles alguns dos procedimentos hostis que foram usados contra mim após ter abandonado a administração pública, e que tinham por fim abafar e silenciar situações comprometedoras: isolar, tentar retirar todos os apoios, atacar a personalidade, não fazer caso de problemas de saúde, espiar, circular boatos.
Durante a fase de quimioterapia foi circulada a opinião de que usava a doença para atrair a comiseração ou tirar vantagens, o que se enquadra nitidamente no esquema de inversão da realidade, isolamento e privação de apoios que tinha sido montado: o surgimento da minha doença foi um choque e um contratempo, poderia levar as pessoas a apoiarem-me (quiça a ouvirem a minha história); quiseram evitá-lo a todo o custo. O facto é que nunca me queixei de nada durante essa fase (como a própria oncologista o sabe) inclusivamente nunca revelei a minha doença a ninguém, com excepção dos médicos e familiares directos. Se os colegas de trabalho suspeitaram, foi porque passei a usar lenço e perdi as sobrancelhas. Pareceu-me inaceitável que a oncologista, se lhe incutiram essa ideia, tenha aderido à mesma para mitigar a rivalidade que entretanto foi desenvolvendo, e que não tenha conseguido ter o autocontrolo necessário para não o deixar escapar com um sorriso mordaz de regozijo.
Compreendo que ao tentar colocar-se na minha pele, e em face à minha história, a oncologista pudesse pensar ou sentir que não teria conseguido ultrapassar o problema da mesma forma que o ultrapassei. Julgo que isso acontece com todos: desconhecer os limites das suas próprias capacidades. De qualquer modo parece-me estranho que o colocar-se no lugar do doente não tenha servido para compreender o que ele sente, mas para desencadear um sentimento de rivalidade, talvez consequência de uma certa arrogância na relação com o paciente. Por outro lado, questiono o que levaria uma oncologista a desconsiderar a história da pessoa doente e a privá-la de normal apoio moral e psicológico.

O que origina este tipo de comportamentos por parte de um médico na relação médico-paciente: o médico não tem resolvidos os seus problemas básicos de carácter ou não pratica os conceitos do humanismo médico contemporâneo?

RE: Humanismo médico contemporâneo em oncologia.

Olá, a sua história seria incrivel se fosse única mas infelizmente acontece demais devido ao motivo que já referiu antes e tem aí a sua resposta, a arrogância e insensibilidade, que andam juntas não é verdade?
Poderá constatar que a arrogância é uma caracteristica da classe médica, mas não dos médicos pois tem excepções, devido ao poder que ganharam em relação ao paciente que tem sua quota parte de responsabilidade pois ajudou a construir essa arrogância ao dar seu poder de decisão aos médicos.
Talvez agora já estão mal habituados como podemos ver sempre que o paciente menos ignorante tenta saber mais, a atitude agressiva do médico aumenta, ou quando o paciente, população, exige mais dos médicos como por exemplo na sua assiduidade lembrando o caso do sistema bimétrico, verifica-se essa arrogância em show nacional.
O poder que ganharam dificilmente o querem perder e como sabemos muito bem, o poder corrompe, e começa exactamente por esses sinais de arrogância e superioridade.

Felizmente também temos bons médicos mas será que os podemos pagar ou ter a sorte de encontrar um no SNS?

Felicito-o pela sua apresentação desta questão pois sei que muitos vão para casa duplamente encolhidos, com a doença e com a pressão e incompreensão.

Não é raro ainda hoje em dia o médico dizer: Vc tem um cancro e tem que ser já operado ou morre!
Entretanto o paciente até não é ignorante e vai tentar uma daquelas charlatanices que os médicos adoram ridicularizar porque funcionam, e volta ao médico sem cancro curado pelo produto a, terapia b, religião c, o que não faltam são casos.
Que fazer a um médico desses? Pode continuar a exercer medicina e ir dizer ao próximo que se não for operado já ou não fizer quimio ou radioterapia vai morrer sendo isso falso ou apenas uma hipótese, já que todos dias se descobrem formas naturais de vencer o cancro e se descobre que tantos cancros são psicossomáticos.

Arrogância esconde uma fraqueza!

Abraço e as melhoras se é que ainda precisa delas :)