Garrotilho

Há um mês atrás, levei a minha filha de 21 meses ao pediatra em virtude de esta se apresentar com febre elevada e de tosse intensa. O pediatra atribuiu um termo técnico que agora não me recordo (qualquer coisa como: faringe/traquiteia ?? aguda) e disse que antigamente era designada por garrotilho. Medicou-a fortemente (uma vez tratar-se de um problema grave). Disse-me também que no passado morriam bastantes crianças com esta doença pois não eram devidamente medicadas.
Gostaria de saber mais sobre esta doença uma vez que as pessoas com quem troquei algumas impressões indicaram que se tratava de um problema grave.

RE: Garrotilho

Cara Maria Regina:

O caso do seu filho refere-se a uma infecção respiratória, sendo provável ter-se tratado de uma traqueíte bacteriana ou de um croup ou laringotraqueobronquite (os tais termos que o seu pediatra terá utilizado...). Como os sintomas são por vezes parecidos, é necessário fazer diagnósticos diferenciais com outras doenças.
A difteria do tracto respiratório, habitualmente designada por garrotilho é uma doença de declaração obrigatória, felizmente em extinção, graças ao programa de vacinação (em Portugal: 5 casos notificados de 1988 a 1992),. A febre raramente é muito elevada, pode haver infecção das narinas (mais frequente nos bébés), da faringe e amígdalas com formação de uma membrana típica e aparecimento de edema (inchaço) do pescoço. A infecção da laringe, traqueia e brônquios pode ser inicial ou secundária à infecção da faringe e os sintomas são rouquidão, respiração ruidosa, dispneia (falta de ar) e tosse canina. Podem surgir complicações cardíacas e neurológicas. Existe um grande risco de obstrução das vias aéreas superiores (VAS), havendo habitualmente necessidade de internar o doente para intubação traqueal e tratamento.
Nas crianças a laringotraqueobronquite (croup) é uma doença benigna e corresponde à grande maioria das infecções da laringe e traqueia. Inicialmente há febre e coriza (pingo no nariz) e surge entretanto rouquidão, respiração ruidosa e tosse laríngea (~à tosse do cão); se houver atingimento dos brônquios aparece pieira. A causa é vírica, sendo mais frequente entre os 3 meses e os 6 anos (++ 1-2 A) e no fim do Outono/início Inverno. A duração habitual é de 2 a 4 dias e o tratamento é geralmente conservador.
A traqueíte bacteriana é uma infecção bacteriana rara, mas grave da traqueia, que surge habitualmente entre os 6 meses e os 6 anos, em qualquer altura do ano. Os sintomas são também rouquidão e tosse canina mas a febre costuma ser elevada e existem secreções mucopurulentas abundantes e sinais de obstrução progressiva das VAS. São necessários antibióticos para o tratamento e em ~80% incubação.
Outro diagnóstico diferencial é a epiglotite, que é uma infecção bacteriana muito grave, com febre alta e sinais de obstrução grave das VAS. Geralmente é preciso intubar o doente, mas desde o aparecimento da vacina do Haemophillus influenzae tipo b houve uma diminuição da sua incidência.