Como apanhar estrelas
04 outubro 2009
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Há vidas que estão suspensas por um fio de seda prestes a ceder ao peso da realidade. A escola, os pais, as políticas sociais, tudo parece ser insuficiente para restaurar o brilho dessas estrelas feridas. A prevenção da exclusão social juvenil e a ação nesta área constituem para uma tarefa hercúlea, muitas vezes frustrante e com resultados difíceis de quantificar.
 

Simon Richey, Diretor dos Serviços Educativos da Delegação da Fundação Gulbenkian no Reino Unido, conhece profundamente essa realidade que no Reino Unido atinge números assustadores. As estatísticas oficiais são: em 2006/2007, 8 680 alunos foram permanentemente excluídos da escola. É com essas crianças que Simon desenvolve há vários anos o seu trabalho de intervenção através da arte que serviu de inspiração ao projeto em desenvolvimento da (ainda em processo de criação) Fundação ALERT, com os jovens da Associação Crescer Ser.
 

Cristina Meireles, a coordenadora da Fundação, valeu-se da oportunidade de Simon Richey se deslocar a Portugal para convidá-lo a vir ao Porto e partilhar a sua profunda experiência. Para participar na sessão, foram convidados vários representantes de instituições como a Fundação Serralves e as associações PELE – Espaço de contato social e Crescer Ser. Além disso, estavam também presentes pedopsiquiatras, psicólogos e artistas plásticos, nomeadamente Kerstin Thomas, a alemã apaixonada pela serra Lousã e Elisabete Bompastor, psicóloga e arte-terapeuta, que colaboram com a Fundação ALERT no projeto com os jovens da associação Crescer Ser.
 

Objetivamente, pretendia-se conhecer e discutir os pressupostos e as conclusões do trabalho intensivo de três semanas que originou o documentário “Everything Stopped”. Este projeto supervisionado por Simon Richey consistiu em colocar um grupo de jovens permanentemente excluídos do sistema escolar inglês a colaborar com uma companhia de dança, tendo por fim a preparação de um espectáculo para pais e professores.
 

Posteriormente, seria feita uma breve apresentação, pela Cristina Meireles, o projeto ainda em curso da Fundação ALERT, com testemunhos da Elisabete Bompastor e da Kerstin Thomas.
 

Sentia-se em todos uma enorme vontade de aprender e de partilhar vivências. A sessão ultrapassou as barreiras linguísticas e foi sempre fluida e profundamente emotiva. Simon, disponível e generoso, falou com detalhes sobre a sua grande experiência e o projeto que veio mostrar e Cristina, a anfitriã da tarde, mediou a discussão que se seguiu ao visionamento do documentário.
 

Foram muitas e pertinentes as questões levantadas. O problema da avaliação destas experiências e da sua continuidade sobressaíram pelo grau de dificuldade que apresentam. Não há fórmulas mágicas, nem era esse o objetivo, mas o espaço que se abriu à partilha fez, notoriamente, eco em todos os presentes que, apesar de ser sábado, não demonstravam vontade de abandonar a sala.
 

Criar oportunidades e fazer renascer esperança em jovens que se sentiram sempre excluídos de uma sociedade que não os compreende não é uma tarefa linear. As pessoas que lutam diariamente para melhorar a realidade social do nosso país têm muitas vezes de encontrar motivação nas pequenas vitórias pouco visíveis, não se deixando abater pelas imensas contrariedades. Felizmente, para esses jovens e para a saúde dos valores humanos, há quem não desanime e avance, apesar de tudo, agarrando essas vidas suspensas, não as deixando cair.

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