Feridas ou úlceras que não cicatrizam

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Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Abr-2001

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Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009

Uma regra de ouro na Medicina estabelece que qualquer ferida cutânea ou das mucosas que não cicatrize em um período de 4-6 semanas deve ser investigada no sentido de excluir uma lesão maligna.

 

Em muitos casos, encontram-se causas benignas, como corpos estranhos (vidro, plástico) que originam um processo inflamatório, às vezes com formação de granulomas. O tratamento é simples e consiste na remoção do corpo estranho. Outras vezes, a falta de higiene local é fonte de infecções recorrentes, em regra polibacterianas, às vezes com formação de trajectos fistulosos e abcessos locais que devem ser desbridados ou drenados cirurgicamente.

 

Em alguns casos, existem doenças sistémicas ou metabólicas subjacentes que devem ser diagnosticadas e tratadas (e.g., diabetes mellitus, insuficiência vascular periférica, déficits imunitários). Ocasionalmente, a ferida ou ulceração é devida a um processo maligno. Na pele, os tumores mais frequentes são o carcinoma epidermóide e o carcinoma basocelular. A biópsia é fundamental para o diagnóstico.

 

Devem-se fazer várias biópsias, profundas, da zona periférica da ulceração, já que a biópsia do centro necrótico pode não ser diagnóstica e dar um resultado falsamente negativo. Diagnosticados em fase precoce, estes tumores são virtualmente 100% curáveis. O carcinoma basocelular raramente metastiza.

 

No entanto, é localmente invasivo e recorre com frequência, se não for removido completamente com uma boa margem cirúrgica de segurança. As ulcerações benignas infectadas secundariamente são, em regra, dolorosas à pressão ou palpação, enquanto que os tumores malignos são, inicialmente, indolores, mas esta regra tem excepções. Às vezes, estes doentes são tratados com anti-inflamatórios não esteróides (e.g., ibuprofen, naproxen, diclofenac, aspirina).

 

Estas drogas diminuem a inflamação e os sintomas locais e podem levar a uma falsa sensação de segurança. Os tumores malignos podem ter um componente inflamatório local que responde parcialmente a estas drogas. Logo, uma resposta parcial não deve ser interpretada como prova de benignidade de uma lesão.

 

Na dúvida, o exame patológico da lesão (biópsia) é imperativo. Na mucosa nasal ou oral, aplicam-se os mesmos princípios. O cancro da cavidade oral (mucosa oral, língua, palato, faringe, mucosa nasal, etc.) afecta, em regra, adultos com factores de risco, especificamente, fumadores crónicos ou alcoólicos, e é mais prevalente em estratos sociais mais desfavorecidos. São, em regra, carcinomas epidermóides e, tipicamente, crescem e invadem localmente, só metastizando em estádios relativamente avançados.

 

No entanto, o grande número de estruturas anatómicas locais importantes num pequeno espaço torna a completa ressecção desses tumores problemática, nos estádios localmente avançados. A cirurgia pode ser mutilante para ser curativa e a radioterapia acompanha-se de uma certa morbilidade (xerostomia, disfagia, etc.).

 

Tumores recorrentes são dificilmente curáveis. A regra de ouro continua a ser: Toda e qualquer ferida ou ulceração na mucosa nasal, língua, palato, faringe, mucosa oral, alvéolos dentários, que persiste para além de 4-6 semanas, deve ser biopsada. Se a lesão for maligna, o doente deve ser referido a um centro de Oncologia para avaliação detalhada e tratamento que, muitas vezes, tem de ser multidisciplinar, incluindo cirurgia, radioterapia, quimioterapia e, mesmo, prevenção secundária com agentes de diferenciação celular, como os retinóides.

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Dr. António Fontelonga - Internista, Oncologista e Hematologista - 04-Abr-2001

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Dr. Armando Brito de Sá - Médico de família - 28-Set-2009



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