in Revista Melhores Práticas, Agosto de 2011
O paciente dá entrada no hospital e segue para a entrevista pré-internação. Idade, histórico cirúrgico, hábitos, alergias, tudo é registrado em um prontuário eletrônico, que integra todas as alas do hospital. Já internado, o médico prescreve um medicamento. Pega seu tablet, smartphone ou computador, digita o nome do remédio e... uma janela pop up salta na tela com um alerta: "Este paciente tem alergia a um dos princípios ativos deste medicamento. Deseja prosseguir mesmo assim?", o computador pergunta. O médico, assertivo, insiste e clica "sim". A tela não deixa por menos: "Notifique a razão dessa escolha", diz outro pop up. Para prosseguir, o médico vai ter de documentar os argumentos que o fazem passar por cima da medida de segurança.
Essa função, chamada de verificação, é um exemplo de uma das contribuições que a tecnologia traz hoje para a realidade hospitalar. Softwares de gestão agora não apenas organizam dados dos pacientes e da instituição, como auxiliam na eliminação de erros, na otimização de custos e, até, dão suporte para a tomada de decisão clínica.
Um dos produtos hoje disponíveis no mercado para essa função é o Soul MV, versão 2010 do software da MV. "O sistema sugere para o médico a condutapadrão para cada procedimento assistencial e dá a ele um gabarito das condutas tradicionais e consagradas na literatura", diz Luciano Regus, diretor da MV.
Para fazer esses alertas de verificação ou mesmo trazer a sequência de ações a serem seguidas a partir de uma suposição diagnóstica, com indicação de exames e medicamentos, é necessário que o software tenha um banco de dados com protocolos de referência fundamentados na bibliografia médica e nos parâmetros da instituição.
Cada software tem uma forma de proceder nesse sentido. O da MV exige que o hospital acrescente seus protocolos institucionais. Outros, como o ALERT, já trazem conteúdo próprio, que deve ser validado, substituído ou acrescidas outras informações pela instituição. "O conteúdo se baseia nas melhores práticas registradas na literatura internacional e nacional", explica Luiz Brescia, diretor-geral da ALERT Life Sciences Computing no Brasil.
Suporte clínico
Alguns softwares apenas relembram protocolos para auxiliar a checagem de decisões já tomadas. Outros ajudam a chegar ao exame, ao medicamento ou ao diagnóstico - e, com isso, oferecem suporte clínico para os médicos.
O ALERT tem uma área, chamada de Protocolos, que trabalha dessa forma. Com base nas informações do paciente, o médico vai abrindo um fluxo de perguntas encadeadas que, no fim, trazem possibilidades de diagnósticos e exames a serem considerados pelo profissional. "O software não interfere na decisão do médico, mas o ajuda a tomar decisões baseado em evidências e melhores referências", diz Brescia, da ALERT.
"É uma inteligência artificial, mas que não substitui o médico na tomada de decisões. Se achar que não deve seguir a orientação, pode ir pela própria expertise", diz o médico infectologista Luiz Henrique Melo, professor da Universidade de Joinville (Univille, em Santa Catarina) e diretor técnico da Smart Medicine.
Melo desenvolveu um sistema voltado para o tratamento de infecção fúngica na UTI. Com ele, de um computador, iPad ou iPod, o médico insere características clínicas do paciente e, em resposta, recebe opções terapêuticas e de procedimentos que seguem diretrizes da Sociedade Americana de Infectologia (IDSA, na sigla em inglês), com atualização periódica pela empresa fornecedora. Também pode, a exemplo do que acontece com os sistemas ALERT e MV, verificar se o medicamento recomendado está disponível no estoque. Se não estiver, o sistema aponta outro equivalente estocado na farmácia.
O software, que pode ser baixado gratuitamente pelo www.smartmedicine.com. br, hoje está presente em cerca de 150 hospitais brasileiros e recebeu o endosso do IQG (Instituto Qualisa de Gestão).
Já o software da MV auxilia na tomada de decisão à medida que, para algumas classes de advertências emitidas pelo sistema, não autoriza a sequência de procedimentos. "Se o sistema identifica riscos sérios de danos, como de um choque anafilático, ele impede o profissional de prosseguir, por exemplo, na indicação de um medicamento", explica Regus.
Terapia intensiva
Desde o ano passado, uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) obriga o monitoramento dos indicadores assistenciais dos 27 mil leitos das unidades de terapia intensiva (UTIs) no Brasil, mirando reduzir índices de mortalidade e riscos de eventos adversos.
Dois anos antes, no entanto, os médicos Carlos Eduardo Reis, Marcio Soares e Jorge Salluh já colocavam no mercado a plataforma Epimed Monitor. A plataforma traz um check-list de procedimentos de segurança a serem verificados durante a visita clínica do grupo médico ou avaliação diária. Os protocolos, já incluídos no sistema, são atualizados semanalmente.
O sistema não exige software: a gestão é administrada por meio da página da empresa na internet. Para isso, basta que os usuários do sistema sejam cadastrados e recebam uma senha de acesso.
Como o sistema é on-line, a informação da instituição é compilada em tempo real e ainda é possível comparar dados de 265 hospitais brasileiros vinculados ao sistema que, somados, respondem por 3.300 leitos de UTI, número maior do que Reino Unido, Bélgica e Irlanda juntos. "A terapia intensiva corresponde a 30% a 50% da alocação de recursos e do faturamento de uma instituição. Entendemos que, para um hospital, é estratégico começar por esse setor. Isso estando contemplado, outros setores também podem se beneficiar", conta Reis, que avisa que a partir de agosto o sistema deve estar preparado para atender também a outras alas do hospital.
On-line, plataforma Epimed custa R$ 120/leito. Já o ALERT tem licença de R$ 700 mil e, à parte, oferece treinamento com time multidisciplinar
Investimento
Os custos das plataformas variam de acordo com diferentes parâmetros. A da Epimed tem custo calculado apenas no número de leitos: R$ 120 a unidade e R$ 2,5 mil pelo treinamento de três horas.
No caso da MV, o investimento varia conforme o número de computadores em que serão instalados e de pessoas a serem treinadas. "O custo fica entre R$ 100 mil a R$ 2 milhões. Em média, temos orçamentos em R$ 500 mil", diz Regus. Esses custos incluem uma etapa de treinamento presencial, com aulas de 8 a 80 horas de duração. Hoje, a empresa também começa a implantar um treinamento on-line.
O software da ALERT usa como parâmetros o número de leitos, o número de episódios oferecidos (como consultas, cirurgias, exames), o tamanho da equipe e o número de clínicas especializadas. Como referência, Brescia diz que um setor de urgência com 400 episódios/dia e 40 leitos teria custo de R$ 2 milhões, o que inclui licença do software, processo de implantação (de cerca de três meses), manutenção por dois anos e uma "assistência presencial" por 30 a 90 dias. "Além do treinamento obrigatório de e-learning, oferecemos a assistência presencial, que é uma orientação dada por equipe multiprofissional da saúde que conhece o software em profundidade", diz Brescia.
Tanto investimento tem retorno em termos de indicadores de desempenho, em razão do controle dos protocolos. Segundo Regus, da MV, o retorno também pode ser percebido nas finanças. "Com a integração das alas, deixam de passar despercebidos procedimentos que devem ser cobrados. Não é raro ver 10% de aumento de receita em três meses depois da implantação", diz o diretor.
Para chegar a isso, é preciso que os profissionais aceitem a proposta. Rogério Pereira, gerente da área de desenvolvimento de sistemas do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), que utiliza o sistema MV2000, diz que barreiras iniciais logo são vencidas: "Depois de um tempo, os médicos percebem que há ganho de desempenho da instituição e se sentem mais seguros, sabendo que estão seguindo os protocolos".
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